Um porre homérico

Tudo começou com o meu nascimento…

Primeiro banho, como não negando a raça, foi na água com vinho, tipicamente italiano; acho que foi daí que o gostinho pelo etílico comecou…

Com mais ou menos um aninho de idade, Sr. Giordano, meu pai, já fazia seu próprio vinho em casa, na Rua Marina Crespi, 132 – Mooca. Minha mãe teve que visitar uma amiga na maternidade e me deixou aos cuidados do papai, só que ele estava engarrafando sua preciosidade: o vinho.

Eu não parava quieta, e ele não pensou duas vezes… lá estava a Sueli, com uma canequinha de vinho na mão.

Quando minha mãe chegou, virgem santa, eu já estava no início de meu primeiro porre. Não é preciso dizer que ela quase matou o meu pai.

Tenho em minha lembrança o porão de casa, aonde eram armazenadas as garrafas de vinho, apesar de que muitas viraram vinagre, que era bem-vindo na culinária de minha mãe.

Nos finais de semana, meu pai se juntava com amigos em uma pizzaria chamada Bimbar, que ficava na Rua Orvile Derbi, no final de tarde, ou antes do almoço de domingo, para jogar conversa fora e tomar seu drink.

Quem é que ia buscá-lo para o almoço ou jantar? É claro, eu, a mais velha dos filhos. Enquanto ele pagava sua conta e terminava sua bebida, eu ficava ao seu lado com aqueles olhinhos querendo dizer "posso experimentar?", e prontamente meu pai fazia com que eu colocasse meu dedinho na bebida para experimentar, meu segundo passo no conhecimento da danada.

Lá pelos meus quinze anos de idade, nossas férias eram na praia. Eu, como fiel escudeira, sempre ao lado de meu pai, fomos à praia, e, claro, também ao bar e restaurante de uns amigos portugueses.

Em um belo domingo ensolarado, depois da praia, meu pai foi até o bar destes nossos amigos para tomar uma caipirinha e, para minha surpresa, cada batidinha que saía para um cliente meu pai pedia para pôr um pouquinho em um copo para mim, acho que experimentei uns cinco tipos de batidas.

Depois de quase uma hora no bar, minha mãe chama para o almoço, subimos para o apartamento, mesa arrumada, um pratão de macarrão, e meu pai coloca a minha frente um copo com cerveja e diz: “Bebe”.

Bebi, caí com a cara no prato de macarronada, desmaiada. No prédio que passávamos as férias, também passava o Dr. Mussiolo, médico conhecido nosso da Mooca, o qual foi chamado para o meu atendimento.

Passado algum tempo, depois de uma bela injeção de glicose na veia, acordei.

Neste momento, meu pai entra no quarto, e um ar sério me diz: “Isto é um porre, aprenda a beber”.

Sabem, de um modo meio que torto ele acertou.

Ele me pôs limite, me ensinou que tudo o que é demais na vida não faz bem.

Até hoje aplico este ensinamento em minha vida. A bebida. Ah! esta me acompanha até hoje, só que de forma mais do que moderada, porque porre com macarrão, nunca mais.

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