Eu me lembro do tempo em que a maioria das ruas de São Paulo era pavimentada com paralelepípedo. Claro que havia muitas ruas de terra na São Paulo de então. Asfalto só mesmo nas grandes avenidas.
Para acontecer uma enchente na cidade era preciso muita chuva, mas muita mesmo.
Hoje está tudo tão diferente e asfalto virou sinal de progresso. Muitas favelas da região metropolitana estão em ruas asfaltadas.
A água que desce do céu não é mais absorvida pela terra, pois não existe mais terra, só asfalto, e a continuar assim logo mais também não existirá mais Terra.
Antigamente, quando chovia, a água penetrava nas ranhuras dos paralelepípedos e a gente percebia que entre uma ranhura e outra nascia planta. Chuvas fortes acontecem quando a massa de ar quente encontra com uma massa de ar frio, e aí é aquele salve-se quem puder. Tem gente que morre dentro do seu automóvel, por afogamento.
Quando faz muito calor e a água da chuva fria bate no asfalto, uma nuvem de calor sobe, o que faz a temperatura ficar ainda mais quente.
Bocas de lobo, bueiros limpos, são coisas raras nesta cidade. Rios e riachos sujos, onde se encontra de tudo, desde sofás, até aparelhos de televisão, colchões e tudo o mais que você possa imaginar, contribuem muito para esse estado de coisas. Os morros desta cidade não mais de terra e grama, mas de asfalto.
Os políticos de outrora e os atuais mandavam afastar todas as ruas, pois isso lhes garantia votos e a própria população se vangloriava de morar em uma rua asfaltada. Hoje, morrem nela.
A cidade ainda é o maior pólo industrial e cultural do país, disso não há a menor dúvida, mas ver todos os dias as mesmas imagens está cansando. Talvez fosse interessante não se tapar mais os buracos da cidade e deixar que as águas da chuva formem poços ao invés de poças.
Gasta-se muito dinheiro com propaganda política, com licitações ilícitas, com obras faraônicas que vão não se sabe para onde, se é que vão para algum lugar.
Infelizmente não é só em São Paulo que coisas como essas acontecem; o Brasil inteiro tem sofrido toda sorte de calamidades, e calamidade já é mais um estado brasileiro que não tem capital e vale aí o duplo sentido da frase.
A nós resta torcer para que as chuvas caiam nas áreas onde estão as represas responsáveis para o abastecimento de água e de energia, e talvez seja importante ir separando um dinheirinho para comprar galochas.
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