Descia eu a Rua Gomes de Carvalho, Vila Olímpia, São Paulo, Brasil, cantarolando a música de uma freira: Dominik, nik, nik, sempre alegre a cantar… Quando atrás de mim veio alguém cantando: Funiqui-se, funique-se, funique-se. Era o Zé Gaiola que chegava de sua aula do grupo escolar Martin Francisco, até então o mais próximo da Vila.<br><br>Trazia na mala da escola visgo para caçar passarinho. Ele não gostava de ficar com o alçapão armado à espera de que o pássaro caísse. O negócio era colocar visgo no arame e galhos de árvores e ver o bicho preso sem poder sair. Trazia também pedregulhos para jogar no telhado do terreiro de macumba da Rua Ribeirão Claro, que era do Bombeiro, um senhor de cor que se vivo hoje seria chamado de cidadão afro brasileiro, coisa assim.<br><br>Depois das devidas explicações disse a ele que aqueles pedregulhos não eram suficientes para quebrar o telhado da casa do Bombeiro. Então fomos pegar paralelepípedos, que tinha aos montes nos cruzamentos das ruas onde era uma valeta para correr as águas da chuva.<br><br>Começamos a quebrar os paralelepípedos com um machadinho e à noite era a hora do quebra-quebra.<br><br>Deixamos as pedras nas proximidades, porque naquele dia tinha jogo no Pacaembu: Palmeiras e Santos. Uma época que só o Palmeiras era páreo para o grande Santos de Dorval, Mengalvio, Coutinho Pelé e Pepe.<br><br>Na volta, já à meia-noite, e com a vitória do Palmeiras por 2 x 1, a farra seria maior, porém aconteceu uma coisa que não estava no script. Nas redondezas tinha algumas macumbas. Tigelas de barro, com galinha preta, farofa, garrafa de pinga, e muitas velas. Sendo assim, antes de apedrejarmos o telhado, começamos a apagar as velas das macumbas fazendo xixi em cima.<br><br>Naquele momento passava a figura mais gozada da Vila Olímpia, o Feió, que indignado dizia que não era para fazer aquilo que dava um puta azar na vida durante sete anos. Segundo ele era pior do que matar um gato, que tinha sete fôlegos.<br><br>Bom, como o serviço já estava feito ficou só a cisma de piores dias. Na verdade, todos deram de ombros, como a dizer: Que se dane! Era o pensamento dos inconsequentes.<br><br>Mas na hora que ia ter início as pedradas, veio a polícia. Alguém que nos viu fazendo xixi nas macumbas avisou o pessoal do barulho que chamou a "dona justa".<br><br>Só sei que no dia seguinte quase toda a Vila Olímpia ficou sabendo do fato. Então, eu, o Zé gaiola, Dilu e outros ficamos sendo chamados de os mijões da Vila.<br><br>Não era aquele papo de fazer xixi pra trás, e sim em macumbas. E a partir daí, elas, as macumbas, ficaram muito amigas da gente. Tinha neguinho que pegava galinha e levava para comer em casa, pois elas estavam mortas fazia poucas horas e estavam fresquinhas. <br><br>Pinga, então, todos davam umas goladas. O que mais podia acontecer era alguém ficar de fogo, caso enchesse a cara. Esse negócio que pinga de macumba dava azar era pura cascata. Só a farofa que ninguém comia, porque às vezes tinha pimenta, e aí a couve flor de alguém podia ficar inflamada, sendo necessário sentar em cima de almofada com buraco no meio. <br><br>Teve uma vez que alguém teve a ideia de transportar as macumbas para outros lugares. Isso por nossa conta. Achávamos que os cruzamentos não eram um lugar apropriado para isso. Então resolvemos levar para a frente e lados da Assembléia de Deus (igreja dos crentes). <br><br>Ficamos todos escondidos para ver a reação das pessoas. Quando o culto terminou e as pessoas com a bíblia debaixo do sovaco iam saindo, era um tal de murmúrios: “Meu Deus, o Diabo esteve por aqui. Sai Satanás!!”.<br><br>Não deu para segurar o riso. Na Vila Olímpia era assim. Na falta do que fazer ficávamos inventando coisas para fortes emoções.<br><br>e-mail do autor: [email protected]