Minha história em São Paulo tem início em dezembro de 1938, quando cheguei do sul, mais precisamente de Florianópolis/SC.
Lembro-me muito bem, foi num sábado, quando, acompanhado de meus pais e meu irmão, fomos até a cidade. Morávamos naquela época a Rua Amazonas, no Campo Belo, hoje atual Jesuíno Maciel.
Existiam, naquela época, bondes pintados de amarelo com numeração em cor prata, lindos. Aliás, me lembro do número de cada veículo, eram os de nº 2101, 2103, 2105, 2107 e 2109. Havia também o bonde "Minas Gerais", pelo seu tamanho, de prefixo 2003, era o antigo bonde para recepções "Ipiranga". Havia também dois reboques pintados nas mesmas cores dos bondes, eram os de nº 2002 e 2004.
Na minha meninice, quando eu ainda estava na cama de manhã, ouvia o apito do amarelão com reboque, às 7 horas da manhã, quando, ao chegar nas paradas de Piraquara e Campo Belo, o motorneiro acionava o apito, avisando para o pessoal acordar, pois eram 7 horas. Os horários dos bondes naquela época funcionavam mesmo (aqui passo um pouco para a aviação).
Havia os trimotores Junker Ju-52/3M, da VASP. Aos sábados à tarde havia um voo para o Rio de Janeiro. Quando ouvia o ronco dos motores para levantar voo, eu entrava em casa e acertava o relógio de parede, pois eram exatamente 15 horas.
Havia os bondes chamados "tubarão", pois eram maiores do que os camarões, eram pintados numa cor laranja, a numeração destes era 2111, 2113 e 2115. Os camarões eram pintados de um vermelho misturado com marrom.
A avenida por onde corriam os bondes em direção a Santo Amaro não era propriamente uma linha de estrada de ferro, era carinhosamente chamada apenas de linha dos bondes Santo Amaro.
Houve uma noite de muita neblina em que um bonde amarelão abalroou um automóvel, no ponto de Frei Gaspar, fazendo com que o bonde descarrilhasse e quase tombasse sobre uma fábrica metalúrgica (pazinha de pedreiro).
Um outro grave acidente ocorrido e que não sai da minha memória foi o engavetamento de um bonde amarelão com reboque na traseira de um bonde camarão, o de nº 1565, fato ocorrido às 7 horas da manhã, com uma espessa neblina e sem visibilidade, na parada Volta Redonda. Houve muitas vítimas fatais, inclusive perdi dois amigos. A causa foi a imprudência do motorneiro, que imprimia alta velocidade no amarelão, sobrecarregado de passageiros. O bonde camarão teve toda a traseira destruída. Aliás, este também estava sobrecarregado de passageiros.
Vou parar aqui, pois teria muito para escrever sobre a memória do bonde Santo Amaro.
Em tempo: sou fanático pelo transporte sobre trilhos, infelizmente os políticos "burros" acabaram com todo o transporte de massa sobre trilhos. Essa é a dura realidade brasileira.
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