Era uma classe de alfabetização de idosos. Bem lá no Jardim São Luiz. Coisa difícil era resgatar a autoestima e estimular a memória. Já que não existe "cartilha de alfabetização" para adultos, o jeito era criar o "adivinha quem falou", e os relatos eram o mote para formatar a tal da cartilha. Os "diálogos de classe", uma motivação a mais para aprender e apreender".
"Eu mesmo venho aqui pra ajudar a passar o tempo. Já estou indo embora". Pra quê estudar?"
"Puxa! Eu aqui me "esforçando", achando que estou fazendo "alguma coisa", e você só tá fazendo hora com a minha cara? Já te falei. Quem não aprender nesta vida vai ter que repetir tudo lá no céu. E com as mesmas professoras!"
"Nós não vamos nos encontrar, boba! Só as comadres se encontram e nós não somos comadres".
"Esta Ilda é triste! Outro dia, a Bel fez a gente repetir e repetir uma música do coral. Aí a Ilda falou: 'tô cansada disto!', vou só dublar. E ficou mexendo a boca sem cantar. Só rindo."
"Eu tinha 13 anos e ganhei uma cesta numa festa. Era um lugar que tinha auditório. Aí mandaram agradecer. Fui lá e não saiu nem uma palavra da minha boca. Eu mexia a boca e nada. Todo mundo me gozava…"
"Eu era gago e tinha medo de falar."
"Eu era levado demais. Um dia, fui numa festa e lá puxei a toalha com a comida em cima. Mamãe passava uma vergonha danada. Em casa, "o couro comia". Mamãe batia e papai batia também."
"É o que eu falei pra ela. Venho aqui e me sinto melhor."
"Quando entrou ladrão aqui, a Bel falou: 'Ninguém sai!', e a Efigênia: 'preciso ir ao banheiro'. A Bel: 'agora não'. A Efigênia: 'vou orar.'. Baixou a cabeça e rezou. Daí falou: 'agora posso ir ao banheiro'.”
"Eu tinha medo de falar e falava muita coisa errada"
"Pra mim esse ano foi muito ruim. O menino preso. A bomba dos corinthianos no colo da menina. O nenê escapou por pouco. Tanta tristeza…"
"Pra mim, eu não posso me queixar. A vida tem dado certo. Só as dores e as doenças, eu ignoro. Meu genro fala que eu sou uma ovelha braba. Não reclamo de nada".
"O que deu certo para mim é que meu filho sarou dos ataques. E estou com saúde".
"Pra mim foi muita dor. Só vir aqui é que foi bom. E conhecer vocês”
"Eu não encarava ninguém. As pessoas que eu cruzava na rua nem tinham rosto. Agora tou encarando todo mundo. Nem sei se vai prestar"
"Pra mim, vir na Julita me ajudou a sair de uma depressão profunda. Foram três meses no quarto. Não conseguia nem comer nem tomar banho. Vim aqui, fiz amizades e apesar da úlcera que me maltrata, melhorei muito."
"Vim de Embu para Parelheiros. Segundo casamento. Esse que me rendeu a pensão de r$ 36.04!"
"Minha vinda foi triste. Só um mês de viuvez. A mais nova recém-nascida. Fui para casa de parentes. Tudo muito custoso e sofrido"
"Ih, minha filha. Ora se eu me lembro. No dia que vim pra cá era todo mundo vomitando. Aquilo chacoalhava que só vendo."
"Eu também vim de maria fumaça. Com os meninos mais
novos. Os grandes já estavam aqui trabalhando. Foi preciso dois táxis. Saímos de uma casa de doze cômodos para uma de quatro."
"E eu? Vim na carroceria do caminhão. Treze dias de viagem. Estrada? Tinha não. Só terra e ribanceira. Vi caminhão de trás despencar depois que passamos na pinguela."
"Eu mudei para uma casa em construção. Nem porta nem janela. Meu marido ia fazendo aos poucos. Filhos? Só uma e outra na barriga que peguei logo."
"Chegamos na Estação da Luz. Fomos caminhando da luz até a Praça da Árvore. Sem costume na cidade. Ficamos um ano e voltamos."
"Eu vim encaixotado. O agente foi lá em Minas e falei pra mamãe: vou trabalhar em São Paulo. Onde? Na Light. Fiquei morando no alojamento. Sem documento e sem registro, muitos anos.”
"Eu lá em Pernambuco. O homem mais de onze meses sem me mandar uma linha. Escrevia pros outros, ora. Aí me danei e vim pra São Paulo de qualquer jeito. A menina só urinava. Que fralda descartável, não tinha não. Vergonha daquele fedor no ônibus. De onde eu vim? Pernambuco.”
"Vim pra São Paulo porque falaram que era fácil arranjar emprego. Fiquei só um mês na casa dos outros. Daí arranjei emprego na Empave".
"Cheguei num dia muito frio. Saí de Minas com um sol vermelhão e um calor de rachar. Roupa de frio? Tinha não. Aqui fui trabalhar na britadeira. Depois na construção civil. Essa Empave só serviu pra sujar minha carteira. Fiquei lá só um mês.”
"Morei na Cidade Ademar. Depois mudei pro Jardim São Luiz. Saudades dos amigos? Senti não."
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"Vim de Alagoas. Sozinha com a menina. Marido? Larguei pra lá. Emprego já arrumado. Que fama de trabalhadeira eu tinha. Onde? Em casa de família…"
"Aqui era garoa direta. Tava acostumada não. Fui ficar na casa da minha tia. Também arranjei serviço em casa de família. Depois fui trabalhar numa firma, mas não deu certo."
"Morei em Ilhéus. Uma beleza. Vim sozinha pra cá. Chorei muito pra vir. Fazer o quê? Meu marido já estava aqui. Lá, em ilhéus, a praia pertinho. A feira, os barcos, o céu azul, tudo encostado. Fiquei apaixonada. Aqui? Tudo muito diferente. Muito difícil.”
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