Hoje eu vou contar a história de um grande trabalhador, meu tio João Bossello. Veio da Itália ainda menino, cursou só o primário e já foi para o trabalho.
Já adulto, depois de anos de trabalho, conseguiu montar uma grande oficina mecânica na Alameda Barros indo até a Rua Albuquerque Lins. Lá ele tinha seção de pinturas, de tapeçaria, era uma mega oficina. Sua clientela era as grandes seguradoras e a elite, como o governador Ademar de Barros, o médico dr. Ayres Neto. E muitos outros.
Mas quis o destino que ele sofresse um grave acidente dentro da sua oficina: a hélice do ventilador cortou o seu braço esquerdo na altura do punho. Naquela época, em 1945, não tinha cirurgia de reimplante de braço, colocou uma prótese de madeira forrada parecendo uma luva de pelica marrom. E voltou ao trabalho.
Depois de muitos anos tornou-se um homem rico, seu único descanso era passar dois meses de férias em Santos com a família.
Em 1959 ele ganhou a medalha de ouro do consulado italiano. Pelos belos serviços prestados aos seus clientes, era um grande profissional, honestíssimo, não permitia que o cliente fosse enganado.
Mas no fim da vida, aos 85 anos, doente (ele residia em frente à oficina, da janela do seu quarto ele olhava a oficina e chorava, sabendo que o fim estava próximo). Queria que os herdeiros continuassem com tudo que ele construiu com sacrifício e a perda de uma mão. Perto da janela ele me contou, olhando a oficina, que sabia que a fortuna iria cair nas mãos estranhas, e seria o fim de tudo.
Estou contando uma história particular da minha família. (Infelizmente ele também teve um pouco de culpa, deixou a herança em mãos erradas). Eu trabalhei com ele vários anos, não tive a sorte de ser um dos herdeiros, não sei por que, o meu falecido irmão mais velho foi totalmente o beneficiado.
Hoje a esquina da Alameda Barros e Albuquerque Lins tem vários prédios, foi vendida por vários milhões. A herdeira, que foi minha sobrinha, faz mais de trinta anos que não vejo. Sumiu, seja feliz.
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