O velho

Esta história aconteceu em meados dos anos 50, eu estudava na parte da manhã e tinha a tarde livre para passear.

O meu pai estava de férias no trabalho (ele era chefe de seção no Matarazzo) e nós íamos muito aos cinemas. Eu gostava de ir no Cine Dom Pedro II assistir aos bang-bangs da vida. Lembro-me do Johnny Mac Brown, Audie Murphy, Hopalong Cassidy, e muitos outros.

Nunca mais esqueci daquele acontecimento. Nós estávamos na época do Natal, passeando pelo Viaduto do Chá, quando um velho todo sujo, barbudo e mal vestido passou a sua mão na minha cabeça. Eu me afastei e respondi mal para o velho. O meu pai viu e perguntou o que tinha acontecido, eu disse: “Esse velho com a mão suja na minha cabeça”. O meu pai falou: “Meu filho, ele é um pobre velho, não fez mal algum a você, volta e peça desculpas e dá uma esmola a ele”. Eu dei a esmola e desejei um feliz Natal, ele olhou para mim, sorriu e disse: “feliz Natal para você também, meu filho”.

Aquele olhar eu nunca mais esqueci. Não sei se ele queria me dizer alguma coisa, nunca mais eu o vi no Viaduto do Chá.

São histórias que podem não dizer nada, mas eu nunca mais vou esquecer aquele sorriso e aquele olhar. Eu sempre me lembro daquele velho e fico pensando: o que seria?

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