Santo Amaro, reduto dos meus avós

Em 12/2008 compartilhei, com saudade, histórias contadas por minha mãe, quando eu era criança, a respeito dos meus avós. Ao ler os comentários senti-me confortável de retribuir o carinho e compartilhar mais algumas aventuras. Antes, porém, sinto necessidade em esclarecer uma observação que uma leitora fez. Realmente, apesar de meu avô ser libanês de nascimento, ficou carinhosamente conhecido na comunidade santamarense, da época, como Chico Turco, sei que o equívoco equivale a espanhol X argentino, apesar do idioma "quase" semelhante são totalmente diferentes…<br><br>Bem, voltando ao meu avô, infelizmente não o conheci pessoalmente, mas minha mãe tinha o dom de contar a história de seus parentes com a mesma mágica de uma Sherazadi.<br><br>Homem de pouca fala, já que o sotaque colaborava para o silêncio, era de estatura mediana e corpo franzino, tinha como vaidade o cultivo de um belo bigode, que na mocidade contrastava com a vasta cabeleira negra.<br><br>Segundo minha tia Salvatina, filha mais velha, de onze irmãos, certa vez me disse que seu pai nascera em uma cidade próxima de Beirute, cuja economia girava em torno da fabricação de utensílios de cerâmica. Quero crer que talvez seja daí a sua inclinação às artes, já que grande parte de seus filhos herdaram tal dom; uns na pintura outros na criação de eventos, mas com certeza sua prole, quando pequenos, eram verdadeiros "arteiros" nas suas traquinagens pelas ruas de terra, em terrenos baldios e lagoas no hoje bairro de Santo Amaro.<br><br>Minha avó, com certeza, mulher à frente de sua época no quesito comercial. Analfabeta na escrita, mas extremamente esperta nos cálculos e negociações. Vaidade pouco cultivou, mas conseguiu, por meio de muito trabalho, assessorar e dar vida ao desejo do companheiro e juntos materializarem o sonho do meu avô Chico Turco, como já disse, libanês de nascimento e santamarense de coração.<br><br>Uma história que qualifica os arteiros da família aconteceu quando minha mãe, mininota ainda e na companhia de uma de suas amiguinhas, compraram com alguns reis uma bela melancia. Ávidas para saborear tal fruta e não querendo compartilhar com mais ninguém e nem serem importunadas, principalmente pelos irmãos, já que era a caçula, foram se instalar sorrateiramente atrás do palco do cinema de meu avô, o Cine São Francisco. Horas depois, fartas e preocupadas com o que restou de tão saboroso lanche, resolveram esconder a fruta para mais tarde terminar de saciar a fome. Crentes de que estavam salvas pelo esconderijo, voltaram às brincadeiras. Mais tarde retornaram ao local, qual não foi a surpresa ao depararem com cascas e sementes no lugar da fruta ainda fresca, deixada tão estrategicamente guardada. <br><br>Diante da nossa curiosidade infantil, minha e de meus irmãos, minha mãe encerrou a história dizendo que nunca souberam quem foi o "sócio" gatuno, apesar de desconfiarem de alguns.<br><br>e-mail da autora: [email protected]