Verde era um barraco que meu pai construiu atrás da casa amarelada de tinta marcada pelas manchas das intempéries do tempo, ali na Rua Jaboatão, onde eu pisava e corria descalço nas brincadeiras com outras crianças, a minha turma. A turma que corria atrás dos balões nas festas juninas, a turma que subia nos pés das árvores frutíferas para colher laranjas e coquinhos, a turma que protegia as meninas da rua contra qualquer candidato a namorado que fosse de outras ruas ou, pior, de outros bairros.
Aos domingos, logo na manhãzinha, eu juntava minha caixa, as latas de graxa, escovas, as tiras de pano que eu rasgava das roupas velhas e ia para a praça e lá ficava até perto do meio dia, quase sempre o tempo suficiente, menos quando chovia, para o meu domingo. Domingo de criança pobre, de pouco conforto, até pouca comida, mas em casa de muito amor e com humor.
E melhor, aos domingos, para mim, minha turma e muitas crianças do bairro, porque havia um programa especial: matinê no Cine Casa Verde, dia e hora do encontro com nossos heróis, os mocinhos dos seriados. Dia de viajar ao espaço com Flash Gordon nos levando ao Planeta Marte, ou do Besouro Verde e seu motorista oriental, o Bruce Lee da época…
Ah, minha Casa Verde, a casa da minha infância que permanece comigo na minha velhice mesmo depois de outras poucas casas, mas muitos apartamentos em tantos bairros de inúmeras cidades… Porque nossa primeira casa, nosso primeiro bairro, ninguém esquece.
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