Figuras exóticas da cidade e da vida

Já li vários textos falando sobre figuras exóticas que encontramos pela cidade: O Homem Cavalo, O Velho do Bode, O Bom Cabelo, do texto "Bêbados e Loucos todo Bairro tem um Pouco", e muitos outros. Creio que muita gente já cruzou com alguma pessoa ensandecida falando do fim do mundo em frente ao Mappin, ou na Praça da República, por exemplo.

Outro dia vi uma mulher num ponto de ônibus da Avenida São João. Vestia roupa sobre roupa como o "João do Saco", figura da minha infância que usava de uma vez todas as roupas que tinha. Carregava ela uma prancheta e caneta na mão. A princípio pensei que fosse realmente uma pesquisadora, pois fazia perguntas e anotava alguma coisa no papel. Mas eram apenas rabiscos, como pude espiar em determinado momento. Os entrevistados eram homens, que ela abordava com voz baixa e macia. E quando um ônibus parava no ponto ela orientava os passageiros, como que agilizando o acesso ao veículo:

– Vamos, vamos, senhor, subindo depressa, vamos…

Depois batia na lataria do ônibus liberando a partida:

– Pode ir, amigo…

Nesses momentos ela sorria com a camaradagem de colegas de trabalho e era aí que meu coração mais se apertava, pois notei que esse devia ter sido realmente o seu trabalho em alguma garagem ou terminal rodoviário. A maioria dos motoristas fazia o jogo dela, certamente por compaixão, mas houve um que se divertiu muito, perguntando com ironia:

– Ah, então eu posso ir? E partiu rindo alto da mulher que, felizmente, não percebeu e também riu em resposta, como se fossem grandes amigos de luta e trabalho. Quando viu que eu a observava olhou-me zangada lançando-me um gesto de impaciência, muito diferente daquele com que abordava os pseudo-entrevistados.

Lembrei-me de um rapaz que vi anos antes, em outro ponto de ônibus, em frente ao Shopping West Plaza, no bairro Pompéia. Vestia camisa azul, como essa mulher, do tipo que usavam os cobradores e os motoristas de ônibus, creio que da empresa TUSA. Ou seria da CMTC? Ou ambas. O rapaz tinha um ferimento na cabeça raspada, próximo à orelha direita, e andava pela calçada abordando as mocinhas, de preferência, pedindo um passe. Uma delas o atendeu entregando o que tinha na mão. Ele subiu os degraus traseiros do ônibus (foi antes de mudar o acesso ao coletivo pela frente), depois desceu voltando à calçada e atropelando as pessoas que tentavam subir.

Meses atrás tive notícia de uma figura muito curiosa. Trata-se de um senhor que apelidei de Homem Sorriso. Durante muitos dias ele esteve a postos em avenida importante do bairro Jaguaré, onde mora minha prima. Assim ela o viu, durante vários dias, na calçada, olhando o movimento com um sorriso incessante no rosto. Traje esporte, próprio para corridas ou caminhadas, a figura serena distribuindo alegria. O fato chamou minha atenção e me rendeu uma crônica que enviei a ela. Seria propaganda de algum novo consultório dentário das redondezas? – brinquei. Quem sabe um garoto propaganda do hormônio do bom humor: as endorfinas?
Como falta vontade de sorrir e esticar os músculos da face nessa rotina de vida de hoje em dia.

Só de pensar na figura, no mínimo curiosa, sinto a massagem suave nas minhas bochechas e meus lábios fazem menção de sorrir. Menos mal – eu penso. Dentre tantos que a loucura dominou, alguém que não aperta o nosso coração, mas desperta um certo alívio e reflexão. Afinal, para sorrir, às vezes basta um pouco de exercício. Pode não resolver os problemas, mas alivia o coração. Como cantar uma canção, olhar um pouco a simplicidade das flores, de um pássaro…

Se um dia me acontecesse de perder o juízo e tivesse que vagar pelas ruas, que fosse numa loucura assim, mais amena.

Soube que o Homem Sorriso, dias depois, desapareceu. Vai ver se cansou de sorrir em vão, ou mudou de endereço o seu trabalho voluntário de exercitar esse ato tão simples que atravessará para sempre a história da humanidade.

Espero que esse texto possa atenuar em alguém uma vontade de sorrir, ainda que sem querer, ou por querer. Quem sabe?

e-mail do autor: [email protected]