O enterro no Cemitério do Brás…

Prenunciava-se dia lutuoso a Dante e a seu pai, Giuseppe, dois generosos homens. Haveriam de comparecer ao velório de tio Pascualle, que logo cedo, às 8h30, seria enterrado, no Cemitério do Brás.

Marcaram o encontro para as 7h30 da manhã, queriam chegar uma hora antes ao funeral para as condolências habituais. O pai, napolitano, conservador, trazendo dos antepassados a obrigação dos pêsames, viera com seu paletó risca-de-giz, preto e cinza, combinando com calça negral de moda elegante e vistosos óculos escuros.

Consumada a cerimônia fúnebre, retornaram para seus trabalhos, mas antes, como frequentadores assíduos do Bar do Amadeu, foram tomar ciência das notícias do dia anterior.

Chegando ao bar, antes de solicitarem o cafezinho habitual, perceberam os olhares entristecidos dos fregueses. É que Mário Louco, uma espécie de meio indigente, figura folclórica do bairro, famoso por ter mordido um cão de rua e este fugir quando o via, morrera. Desconheciam-se seus parentes, ignorava-se sua origem, sabia-se apenas que o destino lhe era incerto. O pior é que o defunto, com o rosto coberto, jazia em sua cama no quarto dos fundos, onde morava de favor, e ninguém ousava vesti-lo. O bondoso Dante e o velho Giuseppe se prontificaram a fazê-lo, apesar do sol e do calor escaldante que fazia. Eram religiosos, acreditavam na conservação da alma ao encontro com as outras, e a de Mário não poderia chegar nua.

O cadáver já estava bastante enrijecido. Com o suor escorrendo pelo rosto, camisa molhada, cansado e ofegante, o velho Giuseppe tirou a camisa, ensopada, e o paletó, com sacrifício, e os pendurou na cadeira. Ficou somente com a camiseta de algodão, que todos os imigrantes usavam por baixo da roupa, na época. Com o suor escorrendo pela testa, iniciou o ritual, controlando a respiração e as lágrimas e pensando com seus botões: – Ninguém se iluda, a morte não é a solução dos problemas.

Com um pano embebido em água e sabão, lavou o cadáver por inteiro, pescoço, pernas, coxas, braços, até os calcanhares. O defunto permanecia impávido, olhos esbugalhados saltando das órbitas, como a pedir pra cerrá-los.

Giuseppe ergueu o morto com as mãos trêmulas, tirando-o daquele sono pesado de cima do travesseiro coberto com a fronha encardida. Sentiu as lágrimas em formação saírem-lhe dos olhos e reprimiu o choro. Pediu ajuda ao filho e tampou o nariz com a mão direita, pois o cheiro o estava intoxicando. Rapidamente, solicitou as vestes aos companheiros presentes, que olhavam assustados aquele cenário fúnebre. Não se poderiam demorar mais, o cadáver estava endurecendo e o calor sufocante contribuía para o desagradável odor. O auxílio ao funeral se tornara um tremendo desgaste. Cerradas as últimas frestas dos olhos, Mário seguiria sua última viagem decentemente higienizado e trajado.

O velho italiano foi ao tanque tomar um ligeiro banho, tirar os vestígios deixados pelo corpo do cadáver e limpar as narinas, ainda com o odor da necrobiose. De volta à sala procurou seu paletó, que havia colocado na cadeira, mas não o encontrou. Procuraram no quarto, fora, na padaria, por toda a casa, não acharam. Quando repararam no defunto, perceberam que o elegante cadáver estava com o paletó risca-de-giz do velho Giuseppe. No alvoroço para vestir o cadáver, o companheiro passara-lhe seu próprio paletó para compor o morto.

Até outro dia, quando visita o cemitério, agora da 4ª Parada não deixava de comparecer ao túmulo de Mário Louco, orar e lembra de seu ex-paletó risca-de-giz.

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