Fazia muitos anos que eu não visitava o Embu das Artes. Sempre admirei as pessoas que fazem suas exposições, usam da criatividade com muito bom humor, numa festa de luzes, cores, sons e formatos muitas vezes inusitados. Fazer feira de artesanato é uma forma de se manter, de forma muito saudável, a juventude, pelo contato amoroso com as cores, aromas e reações alegres e vivas dos passantes.
Eu também já tive a felicidade de expor em feiras de artesanato, há 30 anos, mas não no Embu. Eu era muito jovem, universitária ainda e estava dando os meus primeiros passos como professora de História na escola pública. Fiquei direto cinco meses sem receber salário. Não havia dinheiro para a educação. Foi então que tive que entrar no mundo fascinante da produção artesanal. Nota: nesse tempo em que eu não recebia salário, o governador de São Paulo era um senhor simpático, de óculos, que queria se tornar presidente da República a todo custo e que acreditava ser possível encontrar petróleo no Estado, daí o alto investimento numa empreitada: a Petropaulo. Assim, aos professores só caberia o amor à arte e o sacrifício desmedido. Afinal, dizia o filósofo grego Platão: educar é a arte das artes. Com certeza o então governador acreditava que poderíamos viver de brisa, apenas com o alimento da alma, artisticamente… e só.
Então, eu me dividia: um tempo como aluna da USP, outro período como professora, e num terceiro período como artesã. Eu me dediquei tanto à tarefa de produzir, pois eu tinha que me sustentar, que passava finais de semana craquelando, fazendo bijouterias, pintura em cerâmica, tricô etc., até que, de tanto ficar na antiga máquina de tricô da minha mãe, acabei ficando com uma dor nas costas insuportável. Foi aí que o meu namorado, atual marido, me disse: "perto de casa tem um japonês que faz acupuntura. Eu vou te levar lá".
E fui. Rapidamente o Sr. Yamamoto me colocou as costas no lugar e eu fiquei fascinada com aquele trabalho da medicina tradicional oriental. Como seria possível o japonês dar conta de tudo aquilo que me incomodava numa única vez e com tamanha precisão? Eu me apaixonei tanto por essa arte de curar que hoje também sou acupunturista, depois de longos anos de estudo e de muito investimento.
Em outras palavras, sou imensamente grata ao senhor governador, que quase me deu calote em função dos seus altos investimentos à procura do petróleo, pois me forçou a trabalhar dia e noite até eu ficar quase imóvel de dor nas costas.
Voltemos ao Embu.
Poucos dias antes do Natal estava eu pronta para sair a passeio pela cidade, numa inquietação de saudade de um ano. Recém-chegada de Florianópolis, eu não queria perder tempo no trânsito, sabendo que todos os lugares estariam irremediavelmente lotados pelas confusões das compras de última hora. Resolvemos fazer o caminho contrário, isto é, ao invés de visitarmos o Memorial da América Latina, por exemplo, nos desviamos para a estrada em direção ao sul.
Embu da Artes: há quanto tempo! E como a cidade estava linda! Extremamente simpática, com as exposições de móveis rústicos, roupas coloridas, peças das mais variadas, enfeites natalinos ou não. Estava tudo ali, organizado e com vivas memórias de um passado em que os jesuítas souberam marcar território, ocupar o espaço dos nativos e esses mesmos indígenas tiveram que aprender a dizer amém.
Foi então que tivemos o privilégio de almoçar num restaurante típico mineiro. Quem passaria indiferente por um restaurante chamado "Porco à pururuca"? O gosto da comida é essencial para entendermos o lugar, o sentimento e o pensamento de um povo. Eu, ali naquela rua estreita, entendi mais alguma coisa da alma mineira, escondidinha atrás do mágico porco à pururuca.
Chegamos a um memorial fascinante, até então desconhecido para mim: Memorial Sakai de Embu. Muito acertadamente chamado de mestre Sakai, o sr. Tadakiyo Sakai foi um dos mais conceituados representantes da escultura em terracota no Brasil. Proveniente de Nagasaki (antes da bomba atômica), permaneceu no Brasil desde a adolescência até o seu falecimento, em maio de 1981. No entanto, ele e o pai vieram apenas como visitantes depois da triste perda da mãe. Aqui, o pai também veio a falecer, de tal forma que o sr. Sakai não retornou mais à distante pátria.
Dedicou-se à agricultura, vendendo os frutos da terra, mas, ao mesmo tempo, se tornou um grande pesquisador das lendas e folclore da região. Sakai passou, então, a produzir a primitiva técnica da cerâmica, valendo-se de um sincretismo sem igual, mesclando a cultura oriental com as lendas e tradições indígenas, caboclas e da tradição cristã. Começou a expor suas obras na capital paulista, sob o olhar do grande escultor Victor Brecheret.
Foi, então, no final dos anos 50, que o mestre passou a dividir seu ofício ensinando a arte da cerâmica em terracota para as crianças da comunidade, daí a grande tradição da cidade em divulgar a boa arte, de forma sempre muito original e que não se esgota com o tempo.
E hoje existem cursos abertos à comunidade, como era o grande sonho do mestre: trabalhar e divulgar os saberes daquela gente, discutindo valores diversos, destacando a religiosidade de um povo, como atestam suas obras, fazendo da história local a grande matéria-prima para o entendimento daquela gente. Sakai soube ensinar, ou seja, deixar um sinal positivo: a valorização da memória coletiva como ferramenta para a construção de um novo tempo, cabendo aí o espaço para o entendimento das raízes históricas, as novas direções e caminhos de vida.
Agradeço humildemente à gentileza e o carinho da antiga aluna do Mestre Sakai, Tônia do Embu, que nos orientou durante a visita ao Memorial.
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