Uma espiada no céu da minha São Paulo

O fascinante céu de São Paulo na minha infância era, de certa forma, diferente, talvez pelo meu olhar ingênuo e simples.

Por vezes, deitava no chão do meu quintal ali na Rua Leonor e ficava observando as nuvens, sem saber que cada formação podia ter um nome, cientificamente falando, tais como cumulo e nimbo, pois na minha imaginação pueril eram só figuras fantasiosas e castelos no ar que logo se desfaziam.

Quando nuvens acinzentadas se faziam presentes, eram gigantes que me atemorizavam e que, para meu alívio, se desmanchavam numa daquelas chuvas gostosas das tardes de São Paulo, aquelas de molhar bobo. Ao cair da noite, esta mesma chuva presenteava-me com novas impressões, e olhando da minha janela, suas gotas pareciam pedacinhos de prata caindo do céu, e o seu barulhinho no telhado era uma alentadora canção de ninar.

Outro visitante do céu da minha infância era o senhor arco íris, raro nas aparições, mas impressionante nas suas cores. Diziam que no seu final poderia existir um pote de ouro, mas esta idéia logo se dissipava da minha mente, pois só a sua imponente presença colorida pintando o céu já era por demais valioso pra mim.

O crepúsculo, com cores vibrantes, anunciavam uma noite azulada, muitas vezes ofuscadas pelas luzes da rua, que não me deixavam ver nitidamente os corpos celestes deste teto de azeviche, testemunho silencioso do aconchego de mais uma tranquila noite de sono.

Ah! Lembro-me de um cruzeiro do sul indicando as direções aos corações perdidos, das três Marias sempre juntinhas numa cumplicidade sem par, como também da senhora lua, companheira de meus devaneios, todos cumprindo religiosamente o seu ritual noturno na abobada celeste da minha São Paulo.

Nas noites frias de junho, o firmamento se enchia de pontos luminosos, os balões de São João, que se confundiam com os verdadeiros astros da noite, as constelações. Com a luz do dia, estes mesmos balões, juntamente às pipas, quadrados, barriletes, ornamentavam e coloriam o horizonte num contraste ao fundo azul que servia de moldura.

Eu sempre achei incrível o efeito causado pela chuva de papéis de propaganda arremessados por aviões e que, ao caírem, se transformavam em mais um brincadeira.

Em se falando em aviões, estes sempre foram um mistério pra mim, grandes ou pequenos, sempre firmes nas suas rotas e propósitos, percorrendo o anil sem fim daquela São Paulo. E eu, admirada, sempre os acompanhava com o olhar até os perder de vista, sem saber para onde iam, ou de onde vinham, e sem saber que um dia estes me levariam para tão longe daquele meu pedacinho de céu, que espiava ali do meu quintal.

Hoje sinto falta deste que sempre foi meu amigo, meu querido céu de São Paulo, povoado por diferentes imagens, espreitado por um olhar ingênuo e fantasioso da menina que fui.

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