O ano estava quase acabando. O stress dos fechamentos, quotas e relatórios de vendas estava quase insuportável. Mas não é nenhuma novidade, já que atuei em diversas entidades financeiras de âmbito internacional, cuja pressão é bem maior que os 12 x 8 que todos almejam nesta época.
E com isso declarei minha independência naquela manhã mandando, ao menos por alguns momentos, "tudo às favas".
Deixei o escritório no meu querido e tradicional bairro do Paraíso e fui descendo a Rua Vergueiro, onde nasci na década de 50. Tudo mudado: antigos prédios agora são quase ruínas, o quartel está bem modificado e as escolas profissionalizantes da quadra da São Joaquim quase desapareceram. Ficaram a imponência e o dinheiro de várias universidades particulares, que mais parecem entradas de centros administrativos bancários, nada lembrando a tradicional arquitetura das universidades da minha época.
Cheguei a Praça da Liberdade e depois na João Mendes, onde predominam os "sebos" de forma bastante desordenada, mas ainda deixam algum traço de cultura, ainda que em páginas amareladas e repletas de fungos.
A região da Quintino Bocaiúva me deixou com o coração apertado: um edifício maravilhoso que não me recordo o nome, mas muito mal conservado. E como tantos outros.
Segui em direção ao "centro financeiro" onde vivi por quase vinte anos e só encontrei faculdades particulares. Os antigos bancos da Álvares Penteado deixaram boas e más recordações para seus funcionários e clientes. Não vi restaurantes fora os famigerados bandejões e barezinhos de procedência sob suspeita. Nem o largo do café escapou.
Linda e imponente, foi o que sobrou do passado, é o prédio da BMF, que já foi muita coisa… O da bolsa de valores também estava lindo. Mas a XV de Novembro está totalmente mudada. Ainda dá para ver a imponência do prédio do Banespa e do simpático edifício Altino Arantes da Nossa Caixa, onde quando criança visita com frequência junto com meu avô, diretor da Caixa ainda quando Autarquia. Aquela marca de tijolinhos no prédio é ainda uma lembrança inesquecível de quando pequeno. Parece que podia ainda ouvir o ruído das centenas de máquinas de escrever Remington, que funcionavam a todo vapor.
Também nas proximidades do Banco Safra "sinti" o ensurdecedor barulho das impressoras do supercomputador que ali imperava nos anos 70 e 80.
Procurei a Líbero Badaró com intenção de comprar algumas frutas secas, tradição de uma vida durante as festas natalinas. Não vi enfeites nesta rua, nem a alegria que se via no Edifício Conde de Prates, cujos andares eram numerados com números de cinco em cinco (nunca entendi bem isso), onde ficava a cachoeira de papel picado e listagens de formulários contínuos atirados do alto nos últimos dias de dezembro.
Não vi meus antigos colegas do banco e nem os tradicionais camelôs, como o "djjjgilete inglllessa" do Viaduto do Chá.
A fome batia e fui almoçar em um pequeno bistrô onde, outrora sempre repleto, estava minguado de fregueses. E lá ainda tive de escutar os altos brados de uma senhora que defendia ardorosamente as pichações e o uso indiscriminado de drogas pela juventude.
Foi aí que antes de me chatear consegui finalmente entender o velho ditado chinês que diz: "Nunca mais volte ao lugar onde foi feliz". E apesar do romântico dia de garoa e céu cinzento voltei correndo para minha casa. E para o futuro!
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