Nos anos 1950, um sapato bonito era o destaque dos homens. Isso na visão de muitos. Um sapato limpo e bem lustrado era um chamariz para as mulheres. Talvez apenas uma ilusão. A verdade é que ter sapatos bonitos e bem polidos era a preocupação de todos.<br><br>Assim, quando alguém ia nas lojas Garbo, Exposição, Cliper, ou Ducal, era difícil comprar somente o terno: mesmo sem a pressão do lojista, o sapato era sempre visto como acessório que acompanhava a roupa. <br><br>Tinha sapatos para todos os gostos. Bico fino, bico chato, mocassim, ou mocasino. Mas o sapato sonhado era aquele fabricado pela firma Scattamaquia, na Bela Vista. Não era qualquer um que podia comprar porque era caro.<br><br>O sonho de consumo mesmo não era somente o Scattamaquia, tinha também um sonho para poucos, os mais endinheirados: o sapato de cromo alemão. Era um sapato que gastava a sola, fazia-se muitas meias solas, e o couro estava sempre em dia. Quanto mais velho mais bonito ele ficava, quando bem tratado e engraxado pela Nugget, a graxa que todos compravam.<br><br>Sapato de cromo alemão geralmente era marrom, parece que o preto não tinha graça. O sapato de cromo, mesmo muito usado, não mostrava aquelas rachaduras de couro vaqueta, que era um couro até mais grosso.<br><br>O sapato bonito e quando usado fora de hora, domingo, por exemplo, tinha olhos de outras pessoas, que ao olhar perguntavam: “Ué, usando o sapato da missa?”. Da mesma forma que alguém de terno e gravata, no meio da semana, tinha de responder a pergunta se ia tirar retrato. Muitos diziam que não. Mas iam fazer exame de fezes.<br><br>Quem não usava sapatos usava tênis. Eram tênis comuns, não havia muita variedade como hoje em dia. O tênis com cano alto era chamado de Keds. O sapato escolar, aquele para ir todo dia, era um sapato meio redondinho, parecia sapato de noviça antes de virar freira.<br><br>Quem não podia comprar um sapato escolar, ou um tênis, mesmo aqueles marretas para fazer ginástica na escola, comprava Alpargatas Roda. Seu solado era de cordas entrelaçadas, que em pouco tempo de uso tinha um chulé danado.<br><br>À tarde, depois do banho, era comum usar tamancos. Esses a gente comprava em mercearias.<br><br>Os fabricantes de calçados deviam estar de olho no mercado, pois nos anos 1970 surgiu um sapato de alta durabilidade. O Vulcabraz 752, solado de espessura fina que durava um tempão e era o xodó dos vendedores, que gastavam até três pares por ano. O duradouro uso do Vulcabraz 752 podia acabar com o couro, mas a sola não, ela durava mesmo. Essa propaganda vinha casada com a propaganda da loja de calçados Kerlakiam, nos programas da rádio nacional apresentado pelo Silvio Santos. E na televisão ele aparecia nos pés do Rogério Cardoso, o seu Léro, da escolinha do professor Raimundo.<br><br>Quem não podia comprar essas novidades de marcas novas que surgiam na praça compravam calçados da "marca" Barbante. Era só ir ao Brás ou nas lojas Romão Magazine que tinha sapatos de baciada, e bem baratinhos.<br><br>Quem gostava de jogar futebol, e não mais jogava descalço, como eu e a minha turminha, já estava nas lojas do centro. Na casa do esportista, por exemplo, ficava de olho nas chuteiras Drible. Aquela que fazia propaganda em jornais nas páginas de esporte. Qualquer perna de pau tinha uma chuteira Drible. Só que essa chuteira custava caro. Eu comprei uma chuteira daquelas mais baratas. Atendendo ao meu pedido, o vendedor veio com uma da marca Stadium. Couro preto, bastante macio, uma luva nos pés. Não pestanejei, é essa mesmo que eu quero. A Stadium era bem diferente da Drible, que tinha bico duro, muito bom para quem gostava de chutar de bico. A Stadium era bastante maleável, ideal para quem gostava de chutar de três dedos.<br> <br>Quando eu chegava no campo era motivo de risos. Que é, Mário, comprou chanca de baiano? Não queria nem saber. Meus pés estavam contentes.<br><br>Um dia o Álvaro esqueceu a chuteira e pediu a minha emprestada. Ficou gamado pela delicadeza da mesma em seus pés. Pediu o endereço da loja, foi lá e comprou uma.<br><br>Um dia o lateral da seleção brasileira Nilton Santos, numa entrevista, falou dessa chuteira, que se dava bem em seus pés. Isso muito anos depois de eu ter comprado.<br><br>e-mail do autor: [email protected]