Não é de hoje que se discute o que é mais agradável: ser conhecido na cidade ou bairro em que se reside, ou ser um ilustre desconhecido.
Quem mora em pequenas cidades do interior costuma ter orgulho de contar que anda na rua cumprimentando a todos: o Antonio da farmácia, o Tonicão do mercadinho, a Zuleica costureira, a Conceição manicure, o Carlão do açougue, o Zelão do empório, e daí em diante. Dizem que é confortante poder ser conhecido da vizinhança e de todos, pois, se necessitar de algo, o contato é muito mais fácil e sem formalismos:
– Ah, você é filho Geraldo da borracharia? Claro, pode entrar.
Por outro lado, há sempre a reclamação de que não se tem privacidade, de que, por exemplo, caso se compre um carro novo, a vizinhança já comenta:
– O João deve estar ficando rico. Você viu o carrão novo dele? Ele trabalha com o quê mesmo?? Engraçado… Não é muito comum ganhar tanto dinheiro nesta profissão…
São Paulo, embora seja uma das maiores megalópoles do mundo, ainda possui vários bairros com nítidas características interioranas. O Brooklin Paulista, em que minha família chegou nos idos da década de 1920, não era diferente.
Sou neto do Roque Petroni Junior e, embora, infelizmente, não o tenha conhecido, sua influência em minha infância e adolescência foi muito intensa.
Lembro-me de que, a cada ano que passava no Colégio Meninópolis, situado no âmago do Brooklin, todos os professores perguntavam:
– Você é parente do Roque Petroni Junior?
E daí começavam as perguntas subseqüentes, sobre todos os parentes que haviam estudado por lá, ou que conheciam os velhos professores há anos:
– Ah, então você é filho do Bosco, sobrinho do Zé Cláudio, do Tico, do Bilé e primo do Piti? E o Fábio, continua na farmácia?
Confesso que tinha orgulho de não ser um desconhecido no colégio; sentia que tinha as costas quentes. No entanto, a responsabilidade era maior, e qualquer coisa considerada errada que fazia, a bronca lá em casa era dobrada. Afinal, havia um sobrenome em jogo, e não seria eu quem iria maculá-lo.
O tempo passou, segui meu destino, cada qual seguiu o seu, casei, tive filho, e a imensidão colossal desta cidade-país fez com que praticamente nunca mais cruzasse com qualquer amigo da época do primário e ginásio. É intrigante, e de certa forma triste, morar em uma mesma cidade e não encontrar estas centenas de pessoas em restaurantes, shopping centers, cinemas, teatros, jogos de futebol, por mais de vinte anos.
São Paulo proporciona esta privacidade, esta independência, esta distância, esta discrição, esta frieza, a mesma que alegra muitos por não terem de cruzar ex-desafetos, ex-credores e ex-namoradas.
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