São Paulo em sua pluralidade se torna singular por excelência.<br>Nesta cidade encontramos de tudo um pouco, porém, de uma forma única e especial. Emigrantes e imigrantes juntos num mesmo espaço convivendo harmonicamente.<br>O japonês paulistano é diferente, o italiano paulistano é único, o paulista paulistano é especial, o libanês paulistano tem um sotaque sem igual e o cearense paulistano, vixe, nem se fala. Cada um que aqui chega traz suas características “natais” e se transforma em um paulistano diferente.<br>Existem vários lugares onde podemos encontrá-los, porém, vários deles falando de uma só vez, em voz alta e de forma muito divertida só mesmo numa feira livre paulistana.<br>É uma mistura de cores, cheiros e sabores em meio a gritos de oferta em frases rimadas com sotaques nordestinos, italianos, portugueses, japoneses e até chineses. A briga de vozes para apresentar as ofertas aos fregueses torna-se uma gostosa brincadeira entre os feirantes. É um tal de 3 por 10, 4 por 10, 6 por 10, moça bonita não paga mas também não leva! Olha a uva! Peixe fresquinho! Robalo do Mané, só compra quem vié.<br>O bom humor parece ser sempre o mesmo em décadas. Nem parece que muitos deles acordaram horas antes do sol nascer e alguns nem sequer dormiram. Gente admirável!<br>Há produtos que somente encontramos nas feiras livres, mercados municipais ou em lojas muito especializadas, ou seja, acabamos comprando na feira que sempre é mais perto.<br>As bancas são arrumadas de forma organizada, pilhas coloridas em formatos de pirâmides, cores lado a lado, num arco íris de sabores e aromas.<br>A seqüência e organização das barracas são semelhantes em quase todos os bairros, só aumenta a quantidade de barracas conforme o poder aquisitivo local. Acredito que eles já possuem um esquema de organização antes mesmo de chegar. Começa pelas barracas de flores, depois pastéis ao lado ou em frente da inseparável barraca do caldo de cana, aí começam as barracas de frutas, verduras, legumes, coco fresco ralado na hora, pimentas e temperos, depois as barracas de doces com aquele aroma inesquecível para crianças e adultos, aí já começam as de frangos, carnes, peixes, depois as de utensílios de cozinha, barracas de roupas, as bancas de consertos de panelas e sempre há mais alguma coisa diferente pela frente até terminar.<br>Conheci muitas feiras paulistanas. Sempre havia uma por perto nos diversos lugares onde moramos em São Paulo.<br>Alguns feirantes já sabiam até mesmo o que íamos comprar, já conheciam nossos gostos e por vezes até já deixavam separados os produtos que sabiam que gostávamos. Não sei como conseguiam memorizar, pois geralmente eles faziam várias feiras numa mesma semana e imagino quantos fregueses deveriam atender.<br>Até a década de 80 as feiras eram maiores, pois não havia concorrência com a comodidade, os horários estendidos, a segurança e variedade dos hipermercados, porém, o acolhimento e a humanização das feiras livres são impressionantes fazendo com que ainda consigam sobreviver com sua alegre imponência.<br>Como tantos dizem: “Quem nunca comeu um pastel de feira e tomou um caldo de cana (na feira), não conhece totalmente São Paulo”.<br>Lembro-me que até alguns anos atrás encontrávamos muitos meninos que faziam carretos até as casas dos compradores. Eles acompanhavam pacientemente, com seus barulhentos carrinhos, a pessoa que os contratava e acomodavam cuidadosamente os produtos de forma a não danificá-los. A simpatia e presteza eram a garantia de um freguês satisfeito e a certeza de um carreto na próxima feira.<br>O veículo era uma espécie de carrinho de rolimã com uma grande caixa de madeira pregada em cima e algumas madeiras dispostas de forma a permitir que fossem empurrados ou puxados. Daí em diante era por conta da imaginação: adesivos que encontravam, pinturas diferentes e qualquer detalhe que ganhavam ou trocavam entre eles, tornando seus veículos personalizados, sem mencionar as conhecidas tiras de câmara de pneu pregadas na traseira dos carrinhos que eram arrastadas pela feira e se pisadas pelo condutor ajudavam na hora de brecar.<br>Os meninos eram feitos de sorrisos espontâneos, olhos brilhantes, roupas surradas e chinelos Havaianas quase sem calcanhar em meio a esperanças e pequenas gorjetas.<br>Certa vez, na feira da Rua Dardanelos, Alto da Lapa, conhecemos o Donizete. Menino humilde e raquítico, de sotaque bem marcante, falando quase cantado, Donizete era filho de corajosos paraibanos, o mais novo de nove irmãos que vieram com os pais tentar a sorte em São Paulo. Herdou o carrinho dos irmãos mais velhos que iam conseguindo emprego e passando adiante o veículo já meio danificado, inclusive meus tios haviam conhecido alguns de seus irmãos. Donizete sonhava em fazer faculdade e ser gerente do famoso Bazar Treze, um hipermercado situado no Alto da Lapa, numa esquina da Rua Cerro Corá. Donizete nunca teve o atrevimento de entrar num lugar tão chique, porém sonhava em poder comandar algo tão grandioso com a mesma facilidade que comandava o carrinho na feira. Donizete se transformou no condutor oficial da família. Minha avó, meus tios e meu pai sempre procuravam por ele e acompanhávamos sua história e seus problemas e ajudávamos quando era possível. Mudamos da Lapa, porém, meus parentes continuaram morando por lá durante muitos anos. Donizete sumiu e ninguém sabia notícias suas, somente rumores de que ele estaria trabalhando (como se antes não tivesse). Não havia mais herdeiro para deixar o carrinho. Impossível saber de Donizete, só sabíamos que ele morava em algum lugar perto do Cemitério da Lapa.<br>Certa vez minha tia encontrou um de seus irmãos mais velhos no Metrô e ele contou que Donizete havia arrumado um emprego de office-boy, através de um de seus fregueses e que após algumas promoções conseguira um salário melhor e com a ajuda de uma bolsa de estudos estaria cursando o 2º ano de uma faculdade de Administração de Empresas. Ficamos muito felizes, pois Donizete era um lutador que não se intimidava pelas dificuldades; enfrentava-as. Acredito que ele tenha mudado aquele plano de ser gerente do Bazar Treze, mas seja lá o que ele tenha decidido, que tenha sido feliz em sua escolha.<br>Donizete foi um dentre tantos personagens de nossas feiras livres. Foi um exemplo de luta. Assim como tantos meninos e meninas que trabalharam com seus pais ou mesmo sozinhos. São pequenos e grandes paulistanos que fazem esta cidade ser a grande São Paulo, com suas feiras e sua multiplicidade de ações e opções para quem quiser e tiver coragem de enfrentá-la. Conhecê-la com suas histórias e personagens é um privilégio. Vivenciá-la pode ser um prazeroso desafio. O inevitável é se apaixonar por ela.<br><br>e-mail da autora: [email protected]