Saboreava uma taça de vinho no Restaurante do Papai enquanto aguardava meu pedido – espaguete à bolonhesa -, quando duas belas moças, trajadas de maneira semelhante, e um rapaz, me pediram um minuto de atenção. A mulheres bonitas nada se nega. Faziam um trabalho de pesquisa e de promoção de famosa marca de charutos, Suerdieck, se não me engano, e queriam minha opinião sobre os mesmos.
Indagaram-me se já fumara charutos alguma vez. Respondi afirmativamente; ainda há poucos meses soltara algumas baforadas em homenagem ao Corinthians, que acabara de ser campeão paulista. Os corintianos mais antigos devem se lembrar do folclórico presidente Alfredo Inácio Trindade, com seus chapéus panamás e ternos de linho, que não abria mão de seus charutos, trazendo-os sempre à boca, em quaisquer circunstâncias, transformando-o, inclusive, num dos símbolos da apaixonada torcida. Nele, o grande Oswaldo Molles se inspirou para criar o personagem Charutinho, fanático torcedor, interpretado por Adoniran Barbosa no programa Histórias de Malocas, na velha Rádio Record.
As jovens não se deram por satisfeitas e me inquiriram se em outras ocasiões eu fizera uso deles. Lembrei-me então que fora presenteado por um amigo quando visitara sua esposa na maternidade. Era hábito naqueles tempos (ainda é?) comemorar a chegada de um herdeiro fumando um bom charuto.
Depois de tudo anotado, como convém a uma pesquisa séria, deram-me pequena caixa de charutos, que nunca fumei, e partiram para as mesas vizinhas.
Naquela época, o cinema americano encarregava-se de transformar o pernicioso hábito de fumar em charme e sedução. Grandes personalidades fumavam charuto, como Fidel Castro, Che Guevara, Fernando Pessoa, Churchill, Orson Welles, Groucho Marx, Tom Jobim, Getulio Vargas, Villa-Lobos, Greta Garbo, Mae West e tantos outros e outras (sim senhor!), e a idéia da campanha e da pesquisa era divulgar e popularizar seu uso.
Meditava sobre estas coisas no momento em que o combate ao fumo e aos fumantes se intensifica, e fico imaginando se nos dias atuais seria possível uma empreitada a favor do tabaco, mesmo feita por jovens formosas e gentis, como aquelas que nos longínquos anos 60 me abordaram no Restaurante do Papai.
Lembro-me que, lá fora, uma garoa fina, bem paulistana, molhava as flores da Praça Júlio Mesquita, pela qual se caminhava sem sobressaltos e em cujos bancos estariam sentados, seguramente, casais de namorados, se a noite fosse feita de lua e de estrelas.
Fica ainda a doce lembrança do querido Adoniran e do genial Oswaldo Molles, nesta noite de chuva e de saudade.
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