Conta-nos José Secatto que, no final do anos 10, a Light andou promovendo desapropriações na região de Santo Amaro, o que só vinha reforçar a alcunha de "polvo canadense".
Tudo começou durante a construção da usina de Parnaíba, em 1901, e a sua ampliação. A instalação de sucessivas turbinas obrigou a Light a regularizar a capacidade de vazão do rio Tietê. Para isso, a empresa resolveu construir um grande reservatório de regularização.
Escolhido e delimitado o local do reservatório – o rio Guarapiranga, em Santo Amaro (na época município), afluente do rio Pinheiros – e obtida a concessão, em 1906 tiveram início as obras que terminariam dois anos depois (1908).
O represamento de tão grande quantidade de água (cerca de 200 milhões de metros cúbicos) envolveu a ocupação de uma extensa área da região, onde estavam instalados sítios e chácaras que produziam alimentos para Santo Amaro e para a cidade de São Paulo.
Não deu outra: a concessão dada a Light para o represamento das águas do rio Guarapiranga iria criar inúmeros transtornos para os habitantes de Santo Amaro. Implicaria na desapropriação de grande quantidade de terras de sitiantes e chacareiros, além de desviar a rota de estradas e caminhos de ligação com regiões circunvizinhas, aumentando sobremaneira as distâncias.
A população não ficou calada. Uma série de protestos e manifestações de descontentamentos é feita na Câmara Municipal, na imprensa ou sob outras formas. Um artigo escrito por um sitiante da região (A Platéia, 01/08/1907), apelando para o presidente do Estado de São Paulo, Jorge Tibiriça, mostra bem os ânimos dos desapropriados: "para os abusos que têm cometido os empregados representantes da Companhia Light and Power incubidos da compra de terrenos nas margens do rio Guarapiranga, deste Município, onde esta empresa está construindo uma represa. Entre esses empregados figura o Sr. tenente Amaro Vieira, 1º delegado de polícia desta vila (…). Das muitas compras efetuadas, citaria as que, na ocasião, acodem-me a memória. Ei-las: do Sr. Henrique Pangeluppi, um terreno medindo 6 alqueires, por 6:000$000; de D. Brasilina de tal, um dito com 4 alqueires, por 3:000$000; do Sr. Alferes Filisbino de Andrade, um com 17 alqueires, por 5:000$000; do Sr. Antonio Camargo, um com 30 alqueires, por 7:000$000 (inclusive uma casa de engenho para fabricação de farinha); do Sr. Laurindo de Oliveira, um com 15 alqueires, por 3:000$000 (…). Do Sr. Joaquim Pires de Araújo, pagou a Light, só pela mudança de uma cozinha, a quantia de 5:000$000 (…).
Aos diferentes terrenos adquiridos pela Light, nota-se muita injustiça, dentre as quais citarei a que foi praticada com a viúva de Amaro Batista, que, sendo amedrontada com a ameaça de desapropriação, vendeu por 2:000$000 o bem beneficiado terreno que possuía, quando é certo que um magnífico tanque existente no mesmo vale esta quantia."
O protesto não serviu para nada. A imensa área desapropriada pela Light às margens da represa, muito valorizada, seria ocupada por vários clubes náuticos, chácaras de fim de semana, mansões e local de lazer público e privado. Posteriormente, com a inversão do rio Pinheiros, a represa de Guarapiranga passaria a fornecer água para a represa Billings e para a usina de Cubatão. Também seria transformada em importante reservatório de água potável para a cidade de São Paulo.
Nas últimas décadas, porém, a área – considerada manancial – foi intensivamente ocupada, sobretudo por loteamentos clandestinos e favelas. Calcula-se que perto de 1.000.000 de pessoas estejam habitando a região, a maioria delas em favelas do entorno. Esta ocupação desordenada provocou a poluição da represa por esgotos e lixo, deteriorando e colocando em risco a qualidade da água que abastece parte significativa da cidade de São Paulo. Somente agora, com o crescimento da consciência ecológica e de necessidades imediatas de abastecimento, estão sendo tomadas as medidas para despoluir e salvar a represa de Guarapiranga.
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