Pé-de-Valsa

Faz muito tempo. Trinta anos, ou mais. Convidado por querido amigo, fomos a um clube de danças em São Paulo. Funcionava três ou quatro noites por semana, tinha uma boa pista e uma orquestra supimpa. O inusitado é que uma das noites – acho que às sextas feiras – era dedicada às mulheres, na qual os homens não tinham vez. Somente elas, as dançarinas, podiam escolher seus parceiros para bailar. A regra era severa. Os marmanjos ficavam sentados, tomando cervejas, soltando suas baforadas – na época, fumar era charme irresistível -, à espera dos convites.

É importante dizer que o fundamental não era beleza física do eventual par, mas a destreza e a habilidade em dançar. A performance. Os exímios dançarinos, feios ou bonitos, altos ou baixos, calvos ou com vastas melenas, não tinham sossego.

Bem, eu e meu amigo éramos ilustres desconhecidos. Eu não era lá essas coisas com os pés e não estava preocupado em rodopiar no imenso salão, mas meu companheiro, esse sim, competente em todos os ritmos. E estávamos lá, sentados, com cara de bobocas, tomando o maior "chá-de-cadeira".

Quando o desânimo já nos assediava, eis que, de repente, não mais que de repente, parodiando Vinicius, meu camarada é convidado para uma "contra-dança". Guardei para sempre o sorriso e a alegria do César (esse era seu nome) daquele momento. Agarrou a oportunidade e deu verdadeiras aulas de samba, tangos e boleros, com direito a todas aquelas coreografias que os peritos na arte bem conhecem. Show de bola.

Não é preciso contar que, dali para frente, ele não mais teve repouso. Disparou. Quanto a mim, continuei na cerveja e dando minhas baforadas, pois na única oportunidade que me surgiu fracassei inteiramente: tocava uma rumba e eu me embaracei completamente. Foi o suficiente para permanecer o resto do baile na "geladeira". Vexame!

Aprendi a lição e nunca mais deixei de dançar nos poucos bailes que freqüentava, com as moças menos privilegiadas pela natureza e que pediam, com os olhos súplices, uma chance de girar pelo salão. Nunca me arrependi, porque quase sempre dançavam muito bem e eram tolerantes com meus erros. O pouco que sei devo a elas. Não gosto dos versos de Vinicius "As muito feias que me perdoem, Mas beleza é fundamental". Preconceituoso e discriminatório. Que me perdoe o querido poeta.

Prezadas senhoras, boêmios aposentados, dançarinos enferrujados, notívagos de ontem e garanhões de sempre que freqüentam o SPMC, peço-lhes ajuda, pois a traiçoeira memória não me deixa lembrar (Freud explica?) o local e o nome do simpático e diferente clube. É provável que houvesse, no mesmo estilo, mais do que um em São Paulo. Com a palavra, os pés-de-valsa. Aqueles que viveram essa experiência, mandem sua colaboração e, quem sabe, eu posso desbloquear este episódio, frustrante na época e rememorado hoje, com certa nostalgia, mas, sobretudo, com bom humor, compreensão e a serenidade que a idade nos confere.

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