Histórias do Bonde Perdizes 19

Como tantas vezes, enquanto desfrutávamos a happy hour no altíssimo terraço da Eugenia, tendo a nossos pés uma vista de São Paulo de dar inveja a um cartão postal, olhávamos os Jardins, o Jockey Clube, o Morumbi, o Parque do Ibirapuera. O mar de edifícios a perder de vista era separado, aqui e ali, pelas áreas verdes de clubes e parques.

O bairro dos Jardins foi projetado pela Companhia City e pelo arquiteto urbanista inglês Barry Parker, o mesmo que projetou o Pacaembu, com ruas sinuosas, arborizadas, canteiros laterais nas calçadas, ladeando o espaço dos pedestres – embora não se consiga mais visualizá-los completamente, escondidos ou substituídos pelos grandes arranha-céus que, desde os anos 50, dominaram implacavelmente a região.

Aqui e ali, um helicóptero descendo nos heliportos dos edifícios mostra, claramente, a substituição dos transportes, do tempo em que poucos automóveis deslizavam nos trilhos dos bondes, de forma macia pelas ruas, fugindo do sacolejar provocado pelo calçamento de paralelepípedos das ruas paulistanas.

Lembrando-me dos bondes que rodaram em São Paulo de 1926 a 1969, vieram à tona uma série de lembranças desfrutadas pelo nosso grupo, durante nossa infância nos bairros do Pacaembu e Perdizes. Convivemos com os bondes vermelhos, fechados e charmosos, que não tardou a pegarem o apelido de "camarão". Apesar da pilhéria, este canadense fez muito sucesso junto à população do bairro, acostumada a ver o "Perdizes 19" passando, com seu barulho de rodas de aço nos trilhos e seu motor elétrico, fazendo o percurso da Praça do Correio até o alto das Perdizes (como era chamado o topo da Cardoso de Almeida, na confluência com a Rua Caiubi, onde existia um terminal em "T" para o retorno do bonde, em frente ao local onde existe até hoje a Igreja de São Domingos e o prédio do seu antigo convento, onde atualmente funciona o Colégio Pentágono).

Devido à subida íngreme até o Convento dos Dominicanos, a Rua Cardoso de Almeida se chamou anteriormente de Rua Tabor, lembrando o antigo monte bíblico, passando a chamar-se Rua Dr. Cardoso de Almeida, em homenagem ao conhecido médico da região. Além de ter sido deputado, Secretário da Justiça e Chefe de Polícia, ele morava na chácara que ali existia, cuja casa sede e o restante de suas árvores estão, atualmente, no terreno dos Dominicanos.

As pessoas gostavam de utilizar o bonde, porque sua baixa velocidade de 30 km/h permitia desfrutar a paisagem da cidade. Mas eram os estudantes dos colégios Santa Marcelina, Assis Pacheco e Baptista Brasileiro os que mais vibravam em seus passeios e estripulias, que permaneceram em nossas memórias.

Nos locais em que os trilhos possuíam conexões, para virarem e outro trilho seguia em frente, o motorneiro utilizava uma espécie de chave de fenda gigantesca com mais de metro de comprimento, para alcançar o trilho e virar a adaptação antes de passar.

Os garotos gostavam de subir a Cardoso de Almeida "chocando o bonde", ou seja, em pé no pára-choque traseiro, segurando-se nas travessas amarelinhas das janelas, embora não faltasse bronca dos motorneiros, que chegavam a parar o bonde para mandá-los descer. Mas eles corriam e tornavam a alcançar o bonde e a subir numa pendenga interminável.

Alguns faziam isso por bastante tempo durante o dia comprido, sem televisão nem internet. Havia os garotos mais levados que, ao chegarem ao topo da rua, desciam do bonde, para logo depois que este começasse a descer, rumo à Praça do Correio, despejar gasolina na canaleta do trilho de aço. Levavam o conteúdo sem dificuldade em garrafas de guaraná, compradas no posto de gasolina sem qualquer restrição. Outros amigos, que estavam lá embaixo na confluência da Rua Turiaçu, assim que a gasolina chegava, ateavam fogo no trilho com um palito de fósforo e sentavam, rindo a não poder mais, nas guias da calçada, enquanto as pessoas que vinham no bonde davam "pitos” nos moleques, fazendo clássicas ameaças de falar com seus pais.

Assim, eles corriam dali para retornar depois de uns dias para outra travessura. Na subida, o bonde ia mais devagar do que o normal, devido ao esforço para subir a ladeira, o que facilitava para os meninos subirem no pára-choque, puxarem a alavanca que corria no fio elétrico da rua e pimba: o bonde parava pela falta de energia…

Lá ia o bondoso motorneiro com paciência de Jó, como vovó falava, recolocar a alavanca no fio para o bonde voltar a andar. Enquanto isso, os garotos já haviam subido pela porta de trás do bonde para viajarem sem pagar. Não sei se o motorneiro não percebia ou ficava se fazendo de distraído, conivente com a arte dos meninos, que achavam uma graça louca de irem até o colégio de carona.

Na altura do Colégio Santa Marcelina, onde estudei, o bonde que descia a rua cruzava com o outro subindo – embora nem sempre a coisa fosse bem assim.
Imaginem que os meninos iam até o topo da Cardoso, desciam passando sabão nos trilhos do bonde e, quando o bonde ia subindo, começava a escorregar e a derrapar sem conseguir subir, com a observância de toda a meninada do Colégio…

Era nesse momento que muitas pessoas percebiam para quê o motorneiro trazia sempre uma caixinha de areia junto a seus pés: pacientemente, com uma pá, ele a jogava nos trilhos, para que o bonde pudesse continuar a subir, sem derrapar no sabão.

Assim, entre artes e fuzarcas, cresceram os garotos do bairro, onde as lembranças desses tempos e momentos vividos trazem ainda boas risadas.

Circuito de ida: Praça do Correio, Avenida São João, Praça Marechal Deodoro, Avenida General Olimpio da Silveira, Largo Padre Péricles, Rua Cardoso de Almeida, Rua Caiubi.

Circuito de volta: Rua Caiubi, Rua Cardoso de Almeida, Largo Padre Péricles, Avenida General Olimpio da Silveira, Praça Marechal Deodoro, Avenida São João, Largo do Paissandu, Rua Capitão Salomão, Rua do Seminário e Praça do Correio.

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