Meias idades da idade média

Isso ocorre com dois irmãos, um com 16 e o menor com 11 anos, que trabalham juntos numa gráfica de propriedade de dois sócios, um deles, tio materno dos dois irmãos. Vamos identificá-los como Dante e Dario.

Estamos em 1943, tempo de guerra. O Braz manda, pelo menos, muitos soldados pra guerra, a maioria descendentes de italianos.

Na primeira grande guerra, 1914-1918, meu pai conta que famílias italianas, com receio de perderem a cidadania, obrigavam seus filhos a se alistarem como voluntários nas tropas da península. Um primo dele estava nessa situação, não queria ir de jeito nenhum; meu pai, Bartholomeu, com 24 anos, estaria também em condições de atender o chamado; não quis e não foi. Seu primo não resistiu à pressão do próprio pai, cedeu e foi. Foi e não chegou a atracar ao porto de Gênova. O navio foi posto a pique, matando todos os marinheiros e soldados, com ele, inclusive.

Dante e Dario, trabalhando na gráfica do tio, um italiano analfabeto, bronco, ranzinza e estúpido de meia idade, só alcançando esta sociedade graças a sua mulher Irene, irmã do seu sócio. Vamos chamá-los de Inácio e seu sócio de Lomanto.

A gráfica sofre, como todas as indústrias no país nos anos de guerra, com a falta de querosene, gasolina, lubrificante; o carro, por se recusarem a colocar gasogênio, está suspenso em quatro cavaletes à espera do término da guerra.

Dante, com 16 anos, já é impressor minervista, em máquina sem a proteção obrigatória, pois há um dispositivo que impede o impressor de ter a mão esmagada – a máquina pára imediatamente.

Dario, menor, faz o serviço de intercalar impressos de notas com 1ª, 2ª, 3ª e 4ª vias, com numeração coincidente, folha por folha; faxina na área toda e entregas de impressos em carrinhos, desses que ainda hoje se vê no CEAGESP ou em grandes armazéns, manobrados por adultos fortes.

O absurdo da estória: por serem sobrinhos de um dos sócios, sofrem com tratamento dispensado pelo tio que, pra não mostrar que protege sobrinhos e ajudado por um gerentinho de merda, aplicam os mais humilhantes deveres dentro da empresa, como ensacar rebarbas da máquina de cortar (guilhotina), separando o que é papel de casca de banana, de laranja, restos de comida, escarros e tudo o que compõe um lixo nojento. A guilhotina, que nos primórdios tempos de Gutemberg, ou um pouco depois, já era máquina elétrica, nessa gráfica ainda é manual. Dario gira uma roda do tamanho de uma roda de carroça, fazendo-se, às vezes, de motor elétrico, pra aparar os impressos colocados por esse gerentinho meia-boca e sempre acompanhado de broncas… "Vamos, seu moleque, tá com preguiça…? Mais velocidade nisso, seu preguiçoso…". E por aí afora…

De tempos em tempos, a faca da guilhotina precisa ser afiada, colocada num estojo de segurança, para transportá-la até o afiador, da Rua Sampaio Moreira até a antiga Américo Brasilense (no Braz, não no Brooklyn). Com peso que varia entre dez e quinze quilos, quem vai levar? Dario, é claro… no ombro, e buscar depois. No transporte de impressos prontos, pelas ruas do Braz, Mercadão e adjacências, era no carrinho de mão, puxado pelo Dario. O tio Inácio vai ao lado com a mão sobre a carga, dizendo que segura pra não tombar, pressionando pra baixo, aumentando mais ainda o peso, que não é pequeno. Garoto só com 11 anos…

Seu irmão Dante, depois de terminado o expediente no sábado, vai à casa do tio, uma quadra de lá, pra encerar a casa, sob o comando da tia. O sócio, Lomanto, que a tudo assiste e não reclama, não são seus sobrinhos… Tem um filho na idade do Dario. Quando este garoto vai até a gráfica, é paparicado pelo tio Inácio. Não um simples afago, uma irritante ensaboação que dispensa ao garoto, isso sem levar em conta que o menino é sobrinho de sua mulher… seu por afinidade. O Dario e o Dante são sobrinhos carnais, filhos de sua irmã e não filhos da…

A soberba e a indiferença começam de manhã, quando chegam pra trabalhar. Tio Inácio e o gerentinho puxa-saco, nariz empinado, não cumprimentam ninguém, muito menos os sobrinhos… Arrogância absoluta (principalmente o gerentinho, que nutre certa antipatia pelos dois por causa de… bem, isso já é outra estória…). Não tem papo, rispidez absoluta, verdadeiros cavaleiros da idade média, não os que montam, mas os que estão por baixo… os que são montados.

Tudo isso e mais algumas coisas acontecem em São Paulo, na década de 40, no Braz. Todos os personagens, menos os dois irmãos, já faleceram; os nomes de todos, menos o do meu pai, Bartholomeu, foram trocados.

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