Acabei de lembrar do dia em que o Vigilante Carlos apareceu na minha rua. E não estava só, não! Estava acompanhado por seu inseparável parceiro, o Lobo.
Nós, crianças de bairro, jamais poderíamos imaginar que aquilo aconteceria: o Vigilante Carlos em carne e osso e muita brilhantina no cabelo, e seu sempre fiel companheiro, Lobo, em pêlo e osso!
E estavam com aquela maravilhosa Harley Davidson que ele costumava pilotar com total habilidade. Tudo coisa de cinema. Tudo um sonho para nós!
Como nosso bairro estava ficando importante. Receber aqueles dois grandes astros não era pra qualquer bairro de São Paulo, não. E principalmente na nossa querida Chico Porco (Rua Francisco Leitão), como nós, muito íntimos da rua, a chamávamos.
Que será que estaria fazendo por ali? Será que veio em perseguição a algum dos nossos intrépidos vizinhos? Bem possível.
Talvez do Seu Gelufo e o seu indefectível e ultra polido Fusca 64, cor de gelo. Não sei como não derretia o carro de tanto que ele polia. Talvez algum vizinho tivesse denunciado o Seu Gelufo (já escrevi sobre isso aqui no site), que costumava lavar o seu fusca todo domingo, bem cedo, ouvindo ópera na sua eletrola Telefunken, bem alto, acordando toda a vizinhança. Vai ver esse vizinho inxerido ligou pro Vigilante Carlos só porque não gostava de ópera, ou tinha inveja do fusca.
Ou talvez fosse o Seu Venizelos, dono de um Cadilac 55, rabo de peixe, mais novo que qualquer um recém saído de fábrica. A molecada falava que Seu Venizelos tratava o carro melhor que tratava da mulher dele. Tinha o máximo cuidado pra trocar de marcha. Mentira, o carro era hidramático, mas dramático mesmo era ver o Seu Venizelos discutindo com a esposa. Os vizinhos mais próximos diziam que, vira e mexe, ele reclamava da despesa da mulher no Salão de Beleza da Yumiko. Também pudera: aquela mulher dele não saía do secador de cabelo. Andava com o cabelo mais armado que a árvore de natal do Bazar 13, que era uma vez só por ano. A mulher do Seu Venizelos era duas vezes por semana. Cento e quatro vezes por ano. Fora as datas de festas. Cala-te boca!
Vai ver o Vigilante Carlos estava mesmo era atrás do Seu João Careca, que tinha adquirido há poucos dias uma Vemaguet. É, talvez fosse dele mesmo, afinal todos ali sabiam que ele tinha comprado o carro, mas que nem habilitação possuía.
Sabe como são essas coisas… Despeito de vizinho. Vai ver alguém por ali denunciou o Seu João Careca, que costumava treinar de dirigir à noite, exatamente na calada da noite, quando a rua já tinha pouco movimento, pois, com a luz amarelada dos postes de iluminação, ninguém por ali ia desconfiar que era ele na direção. Só a atenta molecada que ficava nos portões das casas conversando até altas horas é que percebia. Mas também, com aquela reluzente careca, até luz fraca servia pra entregar o serviço do Seu João.
Lembro do dia em que estávamos todos ali, como sempre conversando, e vimos a Vemaguet, cor de espaguete, aquele bege apagado, motor dois tempos, que quando reduzia a velocidade parecia uma reação intestinal, virando a esquina, rumo a casa dele. Entrou direto… No portão!
Acho que ele calculou mal a distância. Achou que o portão estivesse aberto, como havia deixado ao sair, mas não estava não. Algum vento, ou mesmo, mais provável, algum dos nossos sacanas amigos da molecada, resolveu fechar uma das folhas do portão. E lá foi Seu João. Direto. Ferrou o portão e a Vemaguet. Deve ter esquentado, e muito, a careca naquela noite, que nem o motor da Vemaguet, que vivia fervendo o radiador.
Bem, isso não importava. O importante mesmo era ver nosso ídolo ali pertinho de nós, ao vivo e em cores. Ele, com sua farda impecável e a motocicleta cheia de cromo, com o Lobo sobre o banco, atento aos comandos de seu chefe-parceiro.
Na verdade, tudo aconteceu ali por conta da gravação de mais um capítulo do seriado. Como na esquina de nossa rua havia uma agência do Banco América do Sul, a equipe de tevê foi ali para gravar um episódio em que o nosso grande herói foi chamado para solucionar o caso de um assalto ao banco.
Se solucionou o caso, apesar de não ter ficado até o fim da gravação, tenho a certeza que sim! Nada passava ao nosso herói e a seu companheiro. E com franqueza, toda a gente que ali estava não tava nem aí com a estória. O importante mesmo era ver o nosso ídolo atuando, passar a mão no pêlo do Lobo e depois tirar foto com todo mundo. Era muito mais divertido que ver as barbeiragens do Seu João Careca na Vemaguet, ou as brigas do Seu Venizelos com a mulher. Era cada uma…
De noite ou de dia
Sempre no volante
Vai pela rodovia
Bravo vigilante…
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