Gosto por política não se discute, desde que não se subtraia dos cidadãos o direito de propriedade, o exercício do direito de ir e vir, a ampla manifestação de pensamento e eleições livres, atributos de um regime democrático real, em que as liberdades e os direitos individuais devem ser perseguidos, preservados e amparados por lei.
Foi São Paulo que praticamente iniciou um movimento exigindo uma constituição prometida por Getúlio Vargas, depois do golpe que depôs o presidente Washington Luiz, em 1930. Na ocasião, os partidos políticos paulistas haviam rompido com a ditadura Vargas e o Partido Republicano Paulista renascia das cinzas.
Em 25 de janeiro daquele ano, dia do aniversário de São Paulo, mais de 100 mil pessoas se reuniram na Praça da Sé, cobrando a convocação de uma Assembléia Constituinte e o restabelecimento da autonomia política dos Estados, castradas pelo ditador. Não se falava em movimento separatista. Para contornar uma situação que lhe era adversa, Getúlio nomeou Pedro de Toledo, um paulista, para ser o novo interventor em São Paulo. O movimento, contrário à ditadura e a favor de uma constituição, crescia e se espalhava Brasil afora.
A revanche veio em 23 de maio, quando universitários paulistas – Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo – foram mortos em plena rua pela Legião Revolucionária, milícia criada pela ditadura e, assim, a sigla MMDC logo passou a identificar o movimento.
Em 9 de julho, a Revolução explodiu sob a liderança dos generais revoltosos Isidoro Dias Mendes, Bertoldo Klinger e Euclides Figueiredo. Tencionando o apoio da opinião pública nacional, segundo jornais da época, o governo lançou o rumor de que São Paulo desejava separar-se do Brasil, quando, na realidade, os paulistas impunham a volta da democracia e da liberdade, apregoadas pelo ditador que, no entanto, blefava travestido de democrata.
As tropas de São Paulo, somando voluntários paulistas e de outros estados, além de milhares de estrangeiros que aqui viviam e trabalhavam, foram derrotadas no início de outubro. Dois anos depois, por fim, entrou em vigor a nova Constituição, embora a ditadura Vargas perdurasse até 1945, escudada num discutível, polêmico e inconseqüente nacionalismo, pregado a quatro ventos pelo governo central.
Portanto, não foi à toa que São Paulo selou em definitivo aquele movimento com a construção do Mausoleu do Soldado Constitucionalista de 1932, no Parque do Ibirapuera, onde hoje repousam os restos mortais dos soldados que lutaram em prol da liberdade e contra o regime totalitário imposto por Vargas. Talvez, o único marco existente no país, simbolizando o anseio de liberdade e legalidade idealizado pelo heróico povo de São Paulo.
Coincidência ou não, em 9 de julho de 1954, exatos 22 anos após a Revolução de 1932, Vargas veio a São Paulo, na condição de presidente da República. Nessa ocasião, vivia ele o ápice de uma crise política que se alastrava por todo o país, envolvendo diretamente ministros, amigos e partidários do governo. Vargas não tinha como refutar as denúncias dos contrários senão pelo uso da força, eis que atolado em negociatas e demais escândalos diariamente revelados pela imprensa.
E foi num ato impensado e mal-engendrado que seus guarda-costas cometeram o crime da Rua Toneleiros, no Rio de Janeiro, quando, em vez de atirarem no jornalista Carlos Lacerda, opositor e ferino crítico do presidente, erraram o alvo e mataram o major Rubem Vaz, da Aeronáutica, que se achava ao seu lado. Foi o pingo d'água de uma crise que resultou no seu suicídio em pleno Palácio do Catete, na madrugada de 24 de agosto. Muitos anos depois, outra manifestação semelhante à de 1932, também por iniciativa do povo de São Paulo e ainda na Praça da Sé, as Diretas Já, fez o Brasil respirar novos ares da tão almejada liberdade democrática.
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