Se Existem Milagres…

A diversão da garotada do bairro Vila Carioca – Ipiranga – SP, nos idos dos anos de 1958, era jogar futebol, tanto em campos como também em qualquer terreno baldio – e isso tinha muito no bairro.

Na Rua Albino de Moraes/Rua Campante, foi construída uma escola, galpão de madeira com enormes janelas de vidro que, com o passar do tempo, foi desativada, ficando só o esqueleto; isto é, sem telhado, mas com as portas e janelas fechadas.

Ao lado do referido galpão, tinha um terreno vazio em que nós, moradores, acabamos transformando num campinho de futebol, e quase todos os dias tinha jogo. O tempo passou e, no local, foi construída a sede do “Santos Futebol Clube”, da Vila Carioca.

Certo dia, eu fui lá só pra assistir. Enfim, tinha acabado de almoçar, e jogar bola de barriga cheia não é aconselhável. Bola pra cá, bola pra lá e um dos beques, no intuito de defender a sua meta, acertou um chutão na bola de capotão, que foi cair dentro do galpão.

O amigo, por apelido de “Baiúca”, se propôs a entrar dentro do galpão. Como não tinha escada para galgar, subir e entrar, pediu-me que fizesse uma escadinha, juntando as duas mãos; e assim o fiz. Em seguida, ele apoiou o pé direito e foi subindo lentamente.

No momento em que ele foi adentrar ao galpão, passando pelo esqueleto do telhado, bateu o bico do sapato na vidraça, que fez um barulho. Para meu azar, olhei pra cima justamente na hora em que um pedaço de vidro se desprendia, e este veio a cair bem no meio do olho direito.

Não senti nenhuma dor, mas o líquido escorria pela face. Corri pra casa, o Baiúca contou o fato à minha mãe e vamos nós pra farmácia do “Seu Romeu”, Rua Vemag. Olhando a situação do olho, logo disse: “Leve-o já para o Pronto Socorro do Ipiranga, Rua Bom Pastor”.

Do pronto socorro, fui levado de ambulância para o Hospital das Clínicas, e de imediato fui socorrido e operado pelos médicos plantonistas.

O tempo passou… Em 1996, 38 anos depois, estava eu com problemas no olho direito, e foi constatado por exames que tinha catarata e glaucoma. “E agora?”, pensei, “Desempregado, sem recursos…”. Procurei o meu amigo de fé, meu amigo Dr. Dorival Braga, que me indicou o cirurgião-oftalmologista Dr. Benicio Dini de Mendonça.

Fiz todos os exames e foi marcada a data da cirurgia. Internei-me no Hospital Dom Pedro II – SP e, no dia 16 de janeiro de 1996, fui operado pelo doutor acima referido.

No momento em que o doutor aplicava a anestesia, lembrei-me do que minha avó Julia tinha me dito: “Quando você tiver qualquer problema com a visão, invoque a Santa Luzia, ela é a protetora dos olhos, da visão”. E assim o procedi…

Fiquei internado por mais um dia. Quando recebi alta do médico, ele fez questão de dizer: “Se existem milagres, acabei de participar de um”. Dias depois, retornei ao seu consultório para trocar o curativo, e aí foi que a ficha caiu. Isto é, ele me reconheceu, eu também, mas não lembrávamos de que lugar.

Acabamos nos identificando mutuamente: ele, o Dr. Benicio Dini de Mendonza, quando tinha 14 anos de idade, era tipógrafo, ajudava seu pai na tipografia. Aliás, seu pai, Erasmo, era pastor evangélico, residia na cidade Charqueada. Eu também trabalhava numa gráfica e, por um acaso, acabamos nos conhecendo.

Enfim, 16 anos depois, o então menino tipógrafo se tornou um excelente cirurgião-oftalmologista. Que Deus o abençoe na sua trajetória.

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