Jardim Maristela

À direita da Via Anchieta, km 12, no sentido São Paulo – Santos, tem um bairro operário que se chama Jardim Maristela. Um pouco mais à frente, no km 14, São Paulo faz divisa com São Bernardo do Campo. São Bernardo faz parte do ABC, grande pólo industrial onde estão estabelecidas inúmeras indústrias, tais como: Volkswagem, Ford, Arteb, General Motors, Scania, Mercedes, Villares, Brastemp, Metal Leve. Muitas pessoas que moram no Jardim Maristela trabalham no ABC.

Quando esse bairro foi formado, no início dos anos 70, a maioria das famílias que lá habitava não possuía renda superior a cinco salários mínimos. Muitas dessas pessoas haviam começado a trabalhar, desde a adolescência, como aprendizes numa daquelas indústrias. A maioria possuía apenas instrução elementar, complementada por algum curso profissionalizante do Sesi ou Senai.

Havia também a conceituada Escola Técnica Industrial Lauro Gomes – ETI, onde se ingressava por meio de disputado concurso. Lá, os cursos equivaliam ao atual ensino médio. Nos anos 70, o Brasil experimentava um "boom" de crescimento industrial e, conseqüentemente, a oferta de emprego era satisfatória (não necessariamente os salários e as condições dos trabalhadores). Embora pouco politizados, esse povo tinha sede de justiça social e senso de organização.

Dentro deste contexto, o movimento sindical se fortaleceu. Nas passeatas realizadas na Avenida Marechal Deodoro, partindo da Brastemp, parando na Igreja Matriz e seguindo até o Paço Municipal, ou nos comícios realizados no Estádio de Vila Euclides, Lula sempre se mostrava solidário e comprometido com os anseios da classe operária. Anônimo na multidão, eu me sentia esperançoso ouvindo aquele homem – com o qual muitos se identificavam – nos chamando de "companheiros".

Nos finais de semana, um programa típico daqueles trabalhadores era assistir a uma partida de futebol ou ir pescar na represa Billings, ou, ainda, almoçar em um dos vários restaurantes enfileirados ao longo da avenida que fica atrás da Volkswagem, num local denominado bairro Demarchi. A maioria dos donos daqueles restaurantes era de descendência italiana. Certamente, foi Dona Marisa, também descendente de italianos, que levou pela primeira vez o marido, Luiz Inácio, para provar o famoso frango com polenta servido num daqueles simpáticos restaurantes.

Naquela época, o time de futebol do Santo André ainda dava os primeiros passos na 3ª. divisão, e assim também o fazia o ex-torneiro mecânico da Villares, em sua luta como sindicalista. São Caetano, como time de futebol, ainda não existia. Portanto, por falta de opções locais, Luiz Inácio resolveu que seria corinthiano, mesmo contrariando a palmeirense Marisa. Além do mais, timão rimava com povão (he he he!).

Hoje, o Senhor Presidente mora numa outra divisa: – entre a cruz e a espada. Certa vez, quando se discutia corrupção e nepotismo, ouvi Lula dizendo ao repórter: "Ao contrário de muitos políticos, atualmente não tenho quase nada, apenas um sobrado em São Bernardo, uma chácara e um carro usado”. E acrescentou: “Quando me casei, no início dos anos 70, comprei uma casinha financiada pelo BNH, onde fui morar com minha esposa Marisa, lá no Jardim Maristela”.

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