Um domingo no cinema

Lá onde eu morava, no Cambuci, tínhamos à nossa disposição dois cinemas. Um deles, o Riviera, era mais perto, a duas quadras de casa. Tinha aquela entrada imponente dos cinemas da época, bilheteria e na entrada, ao lado do bilheteiro, o guarda civil em traje de gala, com polainas e uma espada na cintura. Durante a semana só havia 2 sessões à noite. Eram 2 filmes do Circuito Serrador por semana, um às 2ªs e 3ªs e outro de 4ª a domingo. Aos domingos as sessões começavam às 14 horas. O outro cinema era o Lins, do Circuito Metro, um pouco mais longe, lá no Jardim da Glória. Não sei como eram as sessões em dias úteis, porque eu e a minha turma da rua só o freqüentávamos nas matinês de domingo. Melhor seria dizer "soireé", já que aconteciam de tarde. Eram geralmente dois filmes e um seriado, além dos jornais e trailers. A molecada chegava cedo e mal as portas abriam era aquela correria para pegar lugar na fila do gargarejo, como se aquele fosse o melhor lugar do cinema. Geralmente íamos a pé, porque nem todos da turma tinham grana para o ônibus. Os mais pobrezinhos iam com o dinheiro contado, que dava para a entrada e "malemá" para uma pipoca americana, o produto mais barato da bombonière. Tinham alguns que nem isso podiam comprar e ficavam filando os nossos drops. Nos intervalos muitos ficavam circulando pelos corredores, fazendo bagunça, olhando as meninas. Em alguns cinemas, na entrada, trocavam gibis e figurinhas. No caminho de ida e de volta evitávamos encontrar com alguma turminha de ruas rivais, senão era encrenca na certa. Teve um domingo que programaram um filme "mais forte" para logo depois da matinê. Não era nada de erótico, longe disso, era apenas um filme de censura 14 anos, onde apareciam uns monstros, coisa sem a menor importância nos dias de hoje, apenas um terrorzinho de quinta categoria. Tiveram que evacuar o cinema para que os de idade abaixo de 14 não ficassem lá dentro. Quem tinha idade ficava, desde que comprovasse com um documento. Teve moleque que tentou se esconder no banheiro, nos vãos das poltronas e até atrás das cortinas, mas o lanterninha, macaco velho, botou todos para fora.
E assim mais um domingo terminava. Chegando em casa o programa era ir para a rua brincar de mocinho, geralmente revivendo os filmes assistidos. Ou então ficar mesmo em casa vendo a Ginkana Kibon no canal 7 e ir dormir cedo, porque no dia seguinte tinha escola.

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