Modismos Paulistanos

São Paulo, por ser cosmopolita e abrigar pessoas de todas as raças, credos, tribos ou outro rótulo qualquer, vive de febres de modismo.
Tivemos a febre o twist, a febre da jovem-guarda, a febre de mini-saia, a febre a saia longa, a febre do boliche, a febre das danceterias e uma porção de outras febres.
Um modismo que eu muito pratiquei foi a febre das grandes choperias. Em São Paulo existiam várias. A gente escolhia uma por dia da semana e podia ficar quase um mês sem repetir de local.
Entre as que eu mais freqüentava estavam: O Zillertall, a Urso Branco, a Joan Sehn, Beer House, Beerhale, Chopperia do Miguel, porém a que me encantava mesmo, era uma pequena choperia na Rua Mathias Ayres de nome O Barril.
Todos os dias, depois das aulas no Ozanan e ainda, depois de deixar dona Cidinha, na época minha namorada, em sua casa na Rua Augusta 1172, eu mais alguns camaradas, entre eles o Toninho Settani (outro Duque de Piu-Piu), que também se despedia da Terezinha que morava na Rua Bela Cintra, íamos molhar a goela nessa casa de chopp.
Na cozinha do Barril trabalhava um baiano que havia sido zelador do Frederico Ozanan, o Zezinho, que devido à sua “nordestinidade”, preparava um patê de pimentas “maravilhoso” e, nos, tomávamos os chopps acompanhados de pão preto e patê de pimenta.
Um dia, numa sexta-feira, depois de findos os compromissos didáticos e amorosos, reuniram-se no Barril os seguintes personagens: Helyon Gianpaolo Pasquini, Roberto S. Chammas Cardoso, Fernando Martins Pizo, Arnaldo Mathias Seraphim, Gerson Brejão, José Rosa, Francisco Correa Brilhante, Waldemar Ferreira e, a figura central da data, Marcos Giacommo.
Figura central por ser o pagador do dia em virtude de estarmos comemorando a sua despedida de solteiro.
As rodadas de chopps, pão preto, patê de pimenta, salsicha com mostarda, calabresa acebolada, foram se sucedendo desde as 11h30min, e entrando na madrugada.
Brincadeiras, cantoria, piadas, discursos acalorados foram sendo apresentados e oferecidos ao noivo. No comando da farra estava o inesquecível e insuperável Waldemar Ferreira (Secretário Geral do colégio e AMIGO ANTES DE TUDO E A QUALQUER HORA).
Os clientes naquela altura dos acontecimentos éramos só nos. Trouxemos então para nossa mesa, além do Gerente da Casa, cujo nome não me recordo, o famoso fazedor de patê o Zezinho Baiano.
Com a voz exaltada pela litragem de chopp consumida, o Waldemar pede a palavra e se propõe a fazer mais uma oração. Prepara-se, limpa o gogó e quando ia iniciar ouve-se uma forte batida na porta do estabelecimento que já estava fechada para o público.
Quem será? Será assalto? Para desfazer as dúvidas o Gerente se levanta a abre a porta, dois policiais se apresentam e dizem que ali estão atendendo a reclamações de moradores do prédio em que a choperia estava instalada mercê do barulho que estava sendo feito.
Sem maiores formalidades, segurando uma caneca numa das mãos, o Waldemar se dirige para os policiais e com todos os floreios possíveis e imagináveis apresenta as razões daquela festa e, descaradamente, convida os policiais a adentrarem o recinto e nos fazerem companhia.
Convence-os que com a presença dos mesmos todos os participantes se controlariam mais, e eles poderiam compartilhar de uma caneca de chopp geladinho.
Tanto fez, tanto se mostrou ofendido com as recusas apresentadas pelos policiai,s que estes não mais resistiram e aceitaram o convite.
Foi assim que a bagunça (um pouco mais moderada perante as figuras da lei) continuou madrugada adentro e só se esgotou às 4 horas da madrugada.
Que delícia de modismo…

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