Maria do Céu

Maria do Céu era uma portuguesa brava, descendente de mouros. Era magrinha e alta, usava brincos de ouro e o cabelo preto puxado para trás. Era uma pessoa despachada, com um coração enorme onde sempre cabia mais uma pessoa.
Maria do Céu achou uma Bíblia no lixo e ficou intrigada, pois ela não sabia ler. Levou a Bíblia para casa e pediu ao marido que lesse um pouquinho a cada dia para ela, o que ele fez com gosto, pois Manuel amava a leitura. Passados alguns meses, Maria do Céu havia encontrado seu destino: aprendera com a Bíblia que deveria fazer o bem, e com muita diligência.
Mesmo sendo analfabeta, Maria arranjou uns bancos na sala de sua casa e convidou a vizinhança para ouvir o Evangelho. Manuel lia e Maria do Céu explicava. Fazia um bule enorme de café com rosquinhas de fubá para todos que apareciam, assim sua “igreja” ia crescendo, uns entendiam a mensagem, outros vinham pelas rosquinhas mesmo. Mas todos ouviam Maria.
Logo ela se tornou conhecida como defensora dos pobres, dos desprezados, das crianças abandonadas e das famílias sem moradia. As pessoas recorriam a ela nas suas dificuldades e Maria fazia o que podia, mesmo sendo ela mesma sem muitos recursos.
Certa vez houve uma festa num Grupo Escolar na Vila Prudente e uma menina se ofereceu para recitar. A criança recitava muito bem, porém sua participação foi impedida por não possuir um vestido novo para a festa! A família era muito pobre e não poderia comprar uma roupa nova em tempo. Maria do Céu ficou indignada. Levou a menina para casa, tirou as medidas e mandou fazer um vestido branco cheio de babados. Comprou sapatos e meias novas, arranjou um banho de espuma e até fita no cabelo. A menina ganhou o primeiro prêmio da festa.
Em outra ocasião Maria estava passando por um terreno baldio quando ouviu alguém se lamentando. O choro vinha de um barraco construído no fundo do terreno e Maria foi investigar olhando por uma janela aberta. Lá dentro uma mulher doente e com fome, deitada num colchão no chão, chorando muito, sozinha. Maria não perdeu tempo, foi correndo para casa já dando ordens para que a filha que matasse uma galinha bem gorda e fizesse uma canja. Carregando uma terrina cheia de sopa Maria voltou ao barraco acompanhada da filha mais velha, e esta cena se repetiu todos os dias, ambas passavam de uma casa para a outra com terrinas de sopa, voltavam carregadas de lençóis sujos que reapareciam limpinhos e cheirosos. Traziam também ovos, pão caseiro, verduras e frutas. O barraco foi lavado e arrumado. Durante um temporal o barraco perdeu um pedaço da parede e Maria pediu ao padre que a ajudasse a reconstruir a casinha, porém a resposta foi negativa, alegando que aquela mulher fora “uma mulher da vida” e nunca membro da paróquia! Maria não se deu por vencida, munida de pregos e martelo, levando seu filho João consigo, fez os consertos necessários para que o barraco não caísse.
Durante todo este tempo Maria do Céu conversava com a sua protegida, falando do amor de Deus, e que não era importante o fato de que ela fora “mulher da vida”, mas que Deus a amava e perdoava se ela se chegasse a Ele. Algumas semanas depois, a mulher morreu.
Maria novamente pediu ao padre que viesse fazer o funeral, mas levou nova recusa. Não havia outra solução: Maria comprou o caixão, preparou o corpo da defunta e preparou o funeral. Vestida com o uniforme da Liga de senhoras a qual pertencia, e usando uma fita roxa de lado, Maria e alguns homens do bairro levaram o caixão ao cemitério. Maria do Céu encabeçava a procissão, andando bem devagar à frente, e assim atravessaram o bairro, para o desgosto do padre e o comentário geral das mulheres “pias” da região.
Assim era Maria do Céu Correia, minha avó. Ela merece esta lembrança neste site de São Paulo, a cidade que amava e o povo que fez seu, tendo deixado seu Portugal pela qual muitas vezes chorava e o qual nunca mais viu. Porém, quanto bem espalhou por onde passava em São Paulo dos idos anos 30! Com esta minha avó aprendi que amar é muito mais do que algo da boca para fora, amar é um verbo, uma ação.

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