Quem, como eu, viveu a infância nos anos 50 e 60 certamente deve ter colecionado revistas em quadrinhos, chamadas na época de gibis. Hoje já inventaram a sigla HQ, e aqueles de origem japonesa são chamados de mangás.
Os meninos da minha rua competiam para ver quem tinha a maior quantidade deles. Outros, mais pobrezinhos, que não costumavam comprar, pediam emprestados, mas quem emprestava ficava cobrando de volta o tempo todo: “Já leu? Então devolve!”. Havia quem os trocava, seja na própria rua ou nas matinês de domingo, na porta do cinema. Os meus eu não trocava. E o motivo era simples. Havia gibis para todos os gostos, dos mais variados gêneros. Os meus eram na maioria infantis ou de aventura. O meu concorrente direto na rua tinha a maioria de faroeste: Cavaleiro Negro, Don Chicote, Kit Karson, Randy Scott, Flecha Ligeira, Roy Rogers, que eu não apreciava muito.
Os meus preferidos eram Luluzinha, Bolinha, Mandrake, Fantasma, Capitão Marvel, Os Sobrinhos do Capitão, Ferdinando (Família Buscapé), todos em formato grande. Da Disney, sempre em formato pequeno, havia só O Pato Donald e Mickey. Depois lançaram o Zé Carioca e o Almanaque Tio Patinhas.
O Maurício de Sousa lançou timidamente na época, o Bidu, que logo sumiu de circulação. Mais tarde ele voltou com força total com A Turma da Mônica, que virou sucesso mundial. Mas os que eu mais gostava mesmo eram os de terror: Terror Negro e Noites de Terror com aquelas histórias repletas de cadáveres putrefatos que saiam do túmulo para atacar as pessoas, além, é claro, do Drácula, Frankenstein e lobisomens. Um dos melhores desenhistas de terror era o Nico Rosso, um italiano radicado no Brasil, se não estou enganado. Minha irmã, 12 anos mais velha do que eu, dizia que jogaria tudo fora, que aquela leitura era perniciosa para mim.
Um belo dia, em que eu batia bola na rua, surgiu um rapaz muito bem vestido perguntando se eu e meus amigos tínhamos gibis para vender. Ele disse que pagaria o preço que estivesse na capa pelo exemplar ao invés de pagar por quilo. Vender por quilo só jornais velhos, revistas nem pensar. Eu vi aí a chance de trocar toda a minha coleção por gibis novos. Peguei toda a minha pilha e fui com ele até o Largo do Cambuci. Ele me pediu para esperar e foi até a banca que ficava na praça, onde simulou estar conversando com o dono. Depois voltou e foi telefonar para uma suposta pessoa que me faria o pagamento. Ele voltou com o endereço, obviamente falso, ficou com todos os meus gibis, escreveu um bilhete para eu entregar para a tal pessoa, que me pagaria. Nem precisa dizer que fui enganado. Toda a minha valiosa coleção se foi. Voltando para casa, subindo a Avenida Lins, encontrei outros garotos que me perguntaram se eu tinha visto o tal sujeito. Eles também foram enganados. Fiquei sabendo que o cara dava o golpe e depois saía vendendo pelas bancas do bairro. Quem me contou foi o próprio dono de uma outra banquinha no Largo do Cambuci. Passando por ela reconheci um dos meus gibis recém surrupiado. Se eu não fosse um pobre garoto ingênuo, o teria denunciado como receptador.
Mesmo assim fui aos poucos refazendo a minha coleção. Depois, à medida que fui ficando adulto, fui me desfazendo daqueles gibis todos. Se tivesse guardado aquelas relíquias, certamente haveria alguém nos dias de hoje disposto a pagar uma pequena fortuna por elas. Que me desculpem os atuais aficionados por HQs, mas isso que eles lêem hoje é puro lixo. São apenas ridículos super-heróis de caráter duvidoso, todos paramentados, com roupas e capacetes vistosos, voando e lançando raios para todos os lados, tentando salvar o mundo. E deles, quem nos salvaria?
Moral da história: o otário é tão desonesto quanto o vigarista, pois quando vê uma chance de se dar bem com pouco esforço, não pensa duas vezes. Só que o vigarista, além de desonesto, é esperto. Eu só perdi os meus gibis, mas têm aqueles que perdem todas as suas economias quando caem no conto do investimento fácil e rentável.
e-mail do autor: [email protected]