Reflexões de Maria no transporte público

Reflexões de Maria no transporte público

Olho para o relógio 17:25, em seguida para a janela do escritório e vejo tudo preto!
O tempo fechou e iria chover; chover não, cair um toró!!
Pensei no carro na oficina há sete meses, na opção entre pagar a faculdade das meninas ou um novo carro. Respiro fundo, fiz a escolha certa.
Não poderei esperar a chuva passar, afinal trabalho numa empresa suíça com horários suíços e no máximo 17:45 estaremos do lado de fora.
Lembro que em minha bolsa está minha sombrinha “suíça” comprada há 10 dias na viagem de trabalho, então ainda farei um estilo no ponto de ônibus!
Quando dou meu primeiro passo na calçada molhada, percebo que justo hoje vim trabalhar com minha botinha de tecido, ok,ok, ela já estava no fim…
Chego no ponto que está divido entre as pessoas sem guarda-chuva abrigadas sob a cobertura e os felizes possuidores de sombrinhas e guarda-chuvas.
Resolvo ficar próxima a estação do metro para ter alguma visibilidade e de repente sinto uma dor em minha canela. Um cego estava andando junto a parede e usando sua bengala para abrir espaço. Lembro que ali na avenida tem uma escola para cegos. Olho para ele, indo abrindo caminho com sua bengala e tenho aquele clássico pensamento “e ainda reclamamos da vida”.
Puxa, estou com sorte, em verde e amarelo minha salvação se aproxima, com a cor verde pintada no ônibus e o letreiro luminoso amarelo piscando!
Rapidamente fecho minha sobrinha suíça, me aproximo da porta e sou subitamente atropelada pelos meus companheiros de viagem, que, diga-se de passagem, com anos de bilhete único.
E me vejo completamente encharcada pela chuva que castigava e impossibilitada de entrar no ônibus. Penso, tudo tem limites pendurada na porta não!!!
E com minha dignidade recuperada pela minha decisão me afasto e retorno ao meu posto de espera.
Observo as pessoas, o tiozinho que vende mentinha à 0,50 centavos, que hoje está com sua cestinha coberta por um plástico e as pessoas cobertas de irritação pela situação.
Vejo chegar uma lotação, onde sobem as moças deixando a sua dignidade do lado de fora e vejo formar aquele quebra-cabeça de corpos. Penso que há alguns dias estava esperando um ônibus no ponto em uma cidade na Suíça e lá existe um letreiro eletrônico que informa daqui a quanto tempo seu transporte chegará, observei que o mais demorado seria dali a 8 minutos. É não somos respeitados … Penso se poderíamos confiscar por alguns meses os carros dos políticos para que sintam em sua pele a dificuldade do brasileiro, de todos os dias.
E assim meus pensamentos vão, passam vários ônibus e a minha esperança verde amarela não…espero…espero…espero…descubro que minha sombrinha chiquetésima da suíça não é forte suficiente para a nossa chuva e fico bem…mas bem…encharcada.
Sou mais forte, não vou deixar me abalar, sou filha de Isaura e neta de Alaíde, mulheres fortes e com bom humor!!! E espero…espero..e espero.
Depois de uma hora vem novamente o meu salvador verde e amarelo, há, há, mas desta vez serei rápida, calculei o exato local onde o ônibus pararia, molhada por molhada, fechei meu guarda-chuva para não me atrapalhar em minha escalada pelos degraus e acreditem fui a primeira daquela massa comprimida na porta a subir.
Eis que vejo um lugarzinho, bem na frente, para deficiente, mas como não havia nenhum deficiente, era meu por direito. Bom estava com sorte! Quando então entra uma grávida, penso perdi a sorte, mas recupero-a rapidamente, a moça não aceitou minha oferta, desceria no próximo ponto.
Assim respiro fundo, sinto aquele ar quente, as janelas fechadas para a chuva não entrar e o único refresco é quando as portas se abrem.
Mas tudo bem, estou sentadinha, acomodada até meu destino.
Rezo para que quando minha situação financeira melhorar nunca esquecer das dificuldades que nós brasileiros enfrentamos no nosso dia-a-dia.
No caminho para o trabalho ouvimos histórias, partilhamos momentos das vidas das pessoas. A moça apaixonada falando do novo amor, o desempregado contando suas decepções, as empregadas reclamando de suas patroas, a mãe desesperada com o filho no hospital, os estudantes com suas mochilas egoístas, os colegas de trabalho discutindo sobre o ambiente na empresa, os aposentados em visita aos filhos, enfim vida e mais vida.
Olho pela janela e vejo como é fácil fecharmos os nossos olhos para esta realidade, nós fechamos em nossos carros com vidros escurecidos e vivemos em uma realidade paralela. Não queremos fazer parte deste mundo de dificuldades, pois para nossos valores nos sentiríamos derrotados e fracassados. E justamente nós da classe média que teríamos inteligência, conhecimento e força para brigar por nossos direitos, nos fechamos em nosso mundo alternativo.
A escola pública não é boa, então não brigaremos por sua melhora, pagaremos uma escola privada e deixemos para os desafortunados esta falta de opção.
A segurança pública não é boa, então não brigaremos por sua melhora, pagaremos pela segurança privada e deixemos para os desafortunados esta falta de opção.
A saúde pública não é boa, então não brigaremos por sua melhora, pagaremos um belo convênio médico e deixemos para os desafortunados esta falta de opção.
De repente sou interrompida em meus pensamentos por um batuque no meu banco, um celular com toque de música tocou, a mocinha impossibilitada de atendê-lo deixou tocar e foi o suficiente para o Sr ao meu lado acompanhar a música no batuque.
Chego ao meu bairro, a chuva continuava forte, minha bota de tecido foi derrotada pelas águas das ruas de São Paulo. Chego em casa cansada, tomo um belo banho quente, janto e depois de relatar meu desafio para chegar em casa ao meu marido me deito e penso. Amanhã será um novo dia.
Acordo e vou para o ponto esperar a minha esperança verde amarela. O ponto fica na frente de um clube cheio de coqueiros. Ouvindo a CBN me distraio com os comentários,Arnaldo Jabor, Miriam Leitão, Dimenstein, Sardenberg,Gehringer, e tenho também minha dose diária de decepções com nossos políticos gastando dinheiro em viagens, reitores, juízes, pessoas que deveriam zelar por nossos direitos.
Ouço pela CBN que o motivo da minha esperança verde amarela estar demorando tanto é que houve uma paralisação de 2 horas. Aviso meu atraso no trabalho.
Lembro-me que em uma das minhas viagens a trabalho para a Suíça uma colega me perguntou:
Maria, porque o brasileiro ri tanto, é feliz? Tem tantos problemas, como consegue rir?
Nisso cai em minha cabeça e na moça ao meu lado uma folha de coqueiro seca, cheia de sujeira. Olho para ela e caímos na risada. E aí ela me fala:
“Estamos com sorte, você já pensou que poderia ser um coco?”
E concluo: Sou realmente uma brasileira!!!

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