A Eterna Escola da Vida (Partes I e II)

(PARTE I)

Meu pai, mesmo sendo semi-analfabeto, usando uma cartilha e tabuada da época, conseguiu ensinar-me a ler, escrever, o básico da matemática, um pouco antes do meu ingresso na escola primária. No início de 1937 eu completara seis anos de idade e comecei o curso primário no Instituto Maria Pia Di Savoia, estabelecido e fundado por italianos, sediado à Rua dos Ingleses, 561, no bairro do Bixiga. Tratava-se de escola particular freqüentada por gente de posses. Eu descendia de família humilde, por isso eu obtive isenção de taxas, pagando um valor mensal simbólico, estudava quase de graça. Se não me engano o horário de funcionamento era de 7 às 17 horas, de 2ª às 6ª. Tinha direito à deliciosa merenda, almoço, lanches no restaurante improvisado no local.
Os cursos eram semelhantes em parte aos cursos primários de outras escolas, nós tínhamos muito mais, curso completo de italiano, iniciação musical, teatral, coral, dança. Havia prática de esportes: futebol, voleibol, basquete, esgrima. Havia também excursões especiais. Todas as tardes, no local onde funcionava a sala de refeições, eram exibidos filmes e documentários próprios para crianças.
Dentre os professores eu destaco dona Margarida Flório, dona Tonica, dona Fassone, dona Lina.
Dentre os colegas, os que moravam no Bixiga eu menciono: Amadeu Fanciulli, filho do dono da Padaria Fanciulli, na Rua 13 de Maio, o Raul Biscaro, que desenhava e escrevia história em quadrinhos de causar inveja a qualquer um, morava na Rua Rui Barbosa, o Mario Zarzana, grande executante de gaita de boca, morava na Rua 13 de Maio e o Mario Tanzi, meu vizinho da Rua Dr. Luiz Barreto.
Eu completei o curso sem interrupção e aprovação em novembro de 1941. Cursei do 1º ao 5º ano (admissão).
Essa escola já não mais existe, em seu lugar foi construído um grande prédio de apartamentos. Sempre que passo pelo local, o meu coração palpita mais forte, a saudade leva-me de volta ao passado e, faz-me sonhar com a minha infância querida, que os anos não trazem mais…

(PARTE II)

Logo após a minha diplomação em novembro de 1941, no curso primário do Instituto Brasileiro Maria Pia, no bairro do Bixiga, já com saudades de minhas professoras, fiz uma visita, e, em contato com dona Margarida ela perguntou-me: "Zezé, o que você quer ser?" "Qual é o seu desejo para o futuro?" A minha resposta foi imediata: "Eu gostaria de continuar os meus estudos, meu sonho desde o inicio é estudar medicina para aprender a curar todos os doentes mais pobres!", "Eu não sei como realizar esse sonho, somos pobres e sem meios necessários para isso". Ela respondeu-me: "Eu tenho um grande amigo, ele é médico otorrinolaringologista, e, leciona biologia no Colégio São Luiz, vou pedir a ele para encaminhar e indicar você para conseguir uma vaga nesse famoso colégio, o nome do médico e professor é Silvio Marone, pedirei a ele também que faça o acompanhamento grátis do seu desenvolvimento físico". Ao mesmo tempo ela tentava conseguir com a diretora da escola, dona Dosolina de Oliveira, que seu cunhado o doutor Clóvis, também cuidasse da minha saúde, nas mesmas condições, em seu consultório particular, na Rua Barão de Itapetininga. Eu disse a ela que não sabia como agradecer por tudo aquilo que ela faria a meu favor, nada havia que pagasse tantos benefícios recebidos, prometi a ela que faria tudo para merecer a sua confiança e estima, a minha gratidão seria eterna.
Não demorou muito para que eu recebesse uma resposta positiva e satisfatória. Na época oportuna consegui uma entrevista com o Irmão Olavo Pereira da Silva, diretor e responsável pela escola noturna anexa ao Colégio São Luiz, eu tinha 10 anos e, no dia 6 de janeiro de 1942 completaria 11 anos. Meu pai acompanhou-me e, fomos atendidos no horário noturno pelo Irmão Pereira. No mesmo instante que ele me viu disse a meu pai: "O menino é muito pequeno e não tem idade para ingressar no curso ginasial. O que eu proponho é que ele seja matriculado no curso de admissão a ser cumprido durante um ano, e, no ano seguinte, ele poderá optar pelo curso ginasial ou comercial, eu ainda acho que a melhor escolha seria pelo curso comercial, ao completar os 4 anos do curso, ele já teria uma profissão (auxiliar de escritório ou similar), ai então ele poderia escolher: o clássico, o científico ou o propedêutico, este último lhe daria o título de contador e, futuramente poderia ingressar na faculdade de sua escolha, se houver um acordo (e, forneceu uma lista detalhada), não será cobrada mensalidades nem matrículas, haverá apenas uma taxa simbólica de valor reduzido".
Eu já havia concluído o curso de admissão na escola primária, mais um ano de admissão no colégio só iria favorecer-me, eu teria mais base para enfrentar o futuro. Depois de tudo acertado, no início do ano de 1942 comecei a freqüentar a Escola Técnica de Comércio São Luiz (a escola noturna do Irmão Pereira). Era e continua estabelecida na Avenida Paulista, 2324, do lado esquerdo toma um quarteirão da Rua Bela Cintra, um quarteirão da Rua Luiz Coelho e, um quarteirão da Rua Haddock Lobo.
No início meu pai me acompanhava na ida e na volta (+ou- às 11 horas da noite). Com o tempo descobri que havia alguns colegas meus vizinhos, e, juntava-me a eles. Agora eu tinha companhia tanto na ida quanto na volta do colégio. Às vezes voltávamos de bonde (Avenida) cujo trajeto era: Avenida Brig. Luiz Antônio e Avenida Paulista e, vice-versa. Outras vezes, usávamos o bonde que fazia o trajeto Rua Augusta e Praça das Bandeiras, descíamos na esquina da Rua Santo Antônio e fazíamos o resto do trajeto a pé até a nossa morada. Eu morava na Rua Dr. Luiz Barreto, três irmãos moravam na Rua Santo Antônio e um deles morava na rua 13 de Maio, no bairro do Bixiga. Mais tarde o grupo foi aumentado com o ingresso do Miguel (hoje é padre jesuíta) e seu irmão Orlando Nacarato, ambos moravam com os pais na rua Rui Barbosa. Depois vieram os irmãos Laércio e Ladinor (hoje padre jesuíta) Gama Durante, que moravam no Bixiga, no início da Rua São Vicente próxima à Praça 14 Bis. O nosso grupo atravessava a Avenida 9 de Julho, subia a Rua Barata Ribeiro, entrava na Rua Dr. Penaforte Mendes, subia a rua Herculano de Freitas, encontrava o José dos Santos, os irmãos Osvaldo e José Oliveira e, por último o Antoninho (hoje padre jesuíta), um portuguesinho que morava na Rua Peixoto Gomide. Ao atravessarmos a Avenida 9 de Julho, dali para a frente até o colégio o bairro era Bela Vista. Na volta o grupo fazia o mesmo trajeto (inverso) e isso continuou por algum tempo. Era muito divertido, que saudade!
Nessa época, os meus avós maternos e os filhos solteiros moravam na Rua Herculano de Freitas na altura do número 300. Essa rua era habitada por muitas famílias de italianos e portugueses.
Certo dia ao visitar meus avós, um de seus vizinhos, português, chegou-se para mim e perguntou: "Rapaz, você gostaria de trabalhar na quitanda do meu amigo Manoel dos Santos (português), o endereço: Rua Cel. José Euzébio, atrás do cemitério da Consolação?". Meus pais consentiram, eu aceitei e lá fui apresentar-me. Depois de engraxate foi esse o meu primeiro emprego. A partir daí, depois do café matinal, eu saia de casa (Dr.Luiz Barreto) já munido do material escolar, fazia todo o trajeto a pé, usando o mesmo caminho do nosso grupo, até a Rua Augusta, depois seguia até a Rua da Consolação esquina da Rua Maceió e, tomava a direção do centro, no fim do quarteirão, chegava ao meu destino.
A mercadoria dessa quitanda era de primeira qualidade, a clientela era seleta e a maior parte dela morava no bairro do Pacaembu, Higienópolis e adjacências.
O meu trabalho consistia em: 1) na parte da manhã entregar as encomendas (separadas pelo seu Manoel com todo o cuidado e os respectivos endereços) e, acondicionadas em cesto especial, que eu carregaria sobre a cabeça, o peso era suportável. Nos primeiros dias ele foi comigo para que eu aprendesse o serviço. A primeira entrega era feita no início da Rua Goiás, a segunda, quase em frente a essa, ou seja, Rua Itápolis, a terceira no fim da Rua Goiás, depois bem próximo a essa, Rua Itapemirim e para completar a primeira etapa, Rua Ceará. Com o cesto vazio, voltava à quitanda, e, começava a segunda etapa pela Rua Bahia, Rua Pará, Praça Buenos Aires, Praça Vila Boim e terminava na Rua Alagoas. A última (mais completa e pesada) era destinada à mansão da Avenida Angélica 1956. Uma vez ou outra havia entregas na rua Angatuba e Bauru.
Depois disso, eu almoçava na casa do dono que ficava ao lado esquerdo da quitanda. Terminado o meu almoço, era a vez do dono, que após isso feito, aproveitava para "tirar uma pestana" e nesse intervalo eu ficava tomando conta do estabelecimento, aproveitando o tempo para estudar as matérias do dia. Mais tarde, depois do lanche, ele me liberava para que eu brincasse com as crianças que moravam na vizinhança.Com o tempo, passei a brincar com o filho do dono do armazém que ficava ao lado direito da quitanda. No fim da tarde, eu tomava um banho de chuveiro, em seguida era servido o jantar, ainda na casa do dono e, finalmente, saia para a escola que era próxima do local. O meu salário era de CR$ 100,00 por mês, eu podia comer à vontade qualquer fruta que me apetecesse. Trabalhei nela desde meados de 1942 até setembro de 1945, logo após o término da segunda guerra mundial. Eu já havia completado 14 anos de idade. Algumas vezes eu dizia comigo mesmo: "Quando eu me formar, espero ganhar muito dinheiro e assim, poderei, quem sabe, comprar o meu carrão e morar numa dessas mansões". O carro eu consegui, mas a mansão já não faz parte do meu sonho, moro no que é meu, sou feliz com o que tenho. Tomara todos chegassem onde cheguei! Graças a Deus!

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