Cambuci da década de 60

Será que tem doçura maior que comer algodão doce – daqueles de carrinho – e machadinho, daquele vendido por um senhor quieto, de roupa já gasta, com uma caixa de madeira fechada e que se assentava num tripé?
Assim passavam, de vez em quando, alguns vendedores de doces no bairro do Cambuci da década de 60.
O senhor que vendia algodão doce era simpático e quieto, mal conversava com as crianças. Parava o carrinho e ia formando as argolas grandes do algodão que saíam da maquininha. Eu gostava de vê-lo despejando o açúcar ali dentro de um pequeno círculo e que logo começava a girar e as doces argolas iam se formando, poeticamente. Ele puxava o doce numa beirada e ia organizando as tiras num pequeno pedaço de papel branco. E como era bom! Quando ele tocava a buzina, a minha irmã e eu pedíamos: “Manhê, pode comprar algodão doce?” E a dona Célia deixava, mas também não era sempre. Eu segurava a mão da minha irmãzinha, que era linda, e íamos deleitar o paladar. Era alguma coisa especial, meio divina, mágica e que logo acabava.
E no outro dia passava o senhor que vendia o machadinho. Na verde caixa de madeira o doce era dividido em duas partes: uma parte do doce era cor-de-rosa e a outra branca. A gente pedia para ele misturar um pouco de cada e ele cortava e também colocava num pedacinho de papel branco. Numa mão ele carregava a caixinha, na outra, o tripé. Quando algumas crianças o cercavam, ele parava no início da vila da Rua Albuquerque Maranhão e montava o seu negócio, com humildade e boa vontade.
Na mesma época era comum, pela manhã, passar um senhor mais humilde, de origem provavelmente libanesa – pelo sotaque – e ia cantarolando alto: “compra roupa velha, roupa velha, roupa velha, roupa!” Era um senhor alto, sisudo, de barba cerrada, um falar alto agudo, e eu tinha um pouco de medo. Eu não sei quem era esse senhor, mas por muito tempo freqüentou aquela rua.
A Rua Albuquerque Maranhão era interessantíssima. Existia ali um conjunto de dez sobrados iguais, sendo 5 de cada lado, separados pela vila onde parava invariavelmente o Senhor que vendia o machadinho. Eram, na origem, casas dos operários que trabalhavam na tradicional fábrica de chapéu Ramenzoni, que ficava nas proximidades, na Rua do Lavapés.
E como a infância era feliz, na simplicidade e na ausência de malícia! Naquele tempo as crianças não gritavam, viviam apenas.
Íamos à escola e respeitávamos muito as professoras. Tive muito orgulho quando a minha primeira professora foi ao meu casamento, quase vinte anos depois de ter sido aluna da dona Aurora. Dividíamos o nosso lanche sem nenhum problema e ninguém ficava constrangido por não ter levado nada para comer na hora do recreio. Aliás, minutos antes do intervalo, a dona Abigail, uma senhora negra, alta, que fazia a faxina, passava com uma caixa de papelão de sala em sala, parava na porta e perguntava: “tem lanche hoje?” Levávamos sempre um lanche a mais para oferecer a quem não tinha nada. Naquele tempo não se falava em ética, ninguém se preocupava com isso, até porque o nosso comportamento era ético, de partilha, de alteridade. À tarde fazíamos a lição de casa sem nenhum mistério. À noite, tomávamos café com leite e pão com manteiga e íamos dormir para acordar cedo e recomeçar a vida. No dia seguinte passava o Senhor do algodão doce ou o Senhor do machadinho ou o Senhor da ”roupa velha, roupa velha, roupa”. A vida se encharcava de poesia e de esperança.

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