Simplesmente um lápis

Acabo de receber da neta mais jovem um pequeno, mas importante, elogio.
“Vô, que legal!” Ela trouxe alguns lápis para apontar, pois minha filha teria dito que o vô fazia pontas de lápis muito bem.
Realmente, sempre me esmerei em fazê-las com capricho, mas à medida que as ia fazendo, a memória voltava ao ano de 1949…
Estava eu fazendo o primeiro ano do primário, no Grupo Escolar José Escobar, situado no Sacomã, Ipiranga.
Ao passar por uma "banquinha", caixote de madeira, em frente ao Mercado Distrital do Ipiranga, naquela época ainda na Rua Bom Pastor, vi e fiquei fascinado por um LÁPIS com listras multicoloridas, diferente dos "John Faber 2" de cor preta . Ao sacrificar meus 30 centavos que minha mãe dava para um doce, reuni capital suficiente para tal compra (como era caro um lápis).
Comprei-o e o guardei na maleta simples de couro, que mais cheirava a lanche.
Em frente ao Grupo Escolar, havia um "bazar" que monopolizava o comércio de material escolar dos arredores. O bazar do Seu "H" era onde se encomendavam as Cartilhas "Sodré" e "Caminho Suave", além dos cadernos de linguagem, aritmética (quadriculado), desenho, cartografia e até de Caligrafia. Seu “H” era um senhor, com ares de bonachão, e sempre solícito.
Num daqueles dias, o Sérgio, meu amigo de traquinagens, que também estava no mesmo grupo, disse-me que iria comprar um lápis e nos dirigimos ao tal bazar.
Compra feita, o Sérgio pediu ao Seu “H” que apontasse o referido lápis naquele apontador de mesa, que fazia pontas muito estilosas, no que foi atendido.
Lembrei-me da minha jóia, e pedi ao Seu “H”, para fazer ponta no meu lápis em sua maravilhosa maquininha.
Entreguei a ele o tal lápis… Ele o tomou entre os dedos, examinou detalhadamente… (ele o está admirando, imaginei…).
Bruscamente devolveu-me o LÁPIS e disse secamente: “PEÇA A QUEM O VENDEU QUE O APONTE”.
Foi como uma BOFETADA… Nunca mais esqueci… Nunca mais usei apontadores… mas aprendi a fazer pontas em lápis que nada ficam devendo a tal maquininha.

Quando devolvi os lápis devidamente apontados a minha neta, ouvi um MUITO OBRIGADO, ao que respondi:

_ Agradeça ao Seu H.

E ela : _ O que?

_ Deixa p’ra lá…

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