Em fevereiro de 1990 os jornais de São Paulo divulgaram a notícia de que fora encontrado um cadáver dentro de uma caixa de papelão, em uma garagem no bairro da Lapa SP, juntamente com uma série de panos e alguns utensílios. Segundo consta, a caixa teria sido guardada a pedido de um cliente da dona da casa, um sociólogo uruguaio naturalizado brasileiro.
Chamada a polícia, foi lavrado um Boletim de Ocorrência e o corpo foi encaminhado ao IML para necropsia e os panos, (vestes) para o Instituto de Criminalística, para exame.
No necrotério do IML, os legistas constataram tratar-se de um cadáver mumificado, tendo sido abertas as cavidades torácica e abdominal para averiguar a possibilidade de conterem cocaína, na suspeita do corpo estar relacionado ao tráfico de entorpecentes.
Nada encontrado encaminharam o corpo para o setor de Antropologia do IML para pesquisa mais aprofundada, a qual foi realizada em conjunto com o Departamento de Medicina Legal da FMUSP,
Os dados do histórico levantaram várias questões médico-legais importantes e responderam a uma serie de perguntas. Chegou-se à conclusão que:
– A mumificação ocorreu de modo natural como demonstram a presença do arcabouço fibroso dos órgãos torácicos, ainda delimitando a cavidade; a boa preservação do diafragma que permanece em posição anatômica; no abdômen, os tecidos fibrosos com características de arcabouço intestinal, contendo no seu interior a matéria fecal.
– A medida do ângulo infra-púbico e as características da bacia óssea vistas no exame radiológico, são indicativas de indivíduo do sexo feminino.
– O estado de ossificação das várias partes do esqueleto, as características degenerativas do mesmo, e os cabelos (grisalhos), além da análise dos arcos dentários e ângulo mandibular, permitiram avaliar a idade provável em mais de 50, possivelmente 60-70 anos.
– A estatura, medida diretamente pela somatória de várias partes e descontando-se as curvaturas devidas à posição do corpo, é de 150cm aproximadamente.
– As características antropométricas e dos cabelos, exclui-se tratar-se de indivíduo leucodermo (branco) ou melanodermo (negro). A par disso, a posição em que foi enterrado, o tempo provável da morte e as características das vestes indicam claramente tratar-se de um indígena.
– Não foram encontradas evidências de traumas ocorridos em vida, quer próximos da morte (peri-mortais) quer em época bem anterior à mesma.
– A presença de bolo fecal de razoável quantidade no intestino, indica que a pessoa estava se alimentando bem até um período bem próximo da morte, o que fala contra doenças obstrutivas do trato digestivo, principalmente as do tipo neoplásico. O próprio bolo fecal em grande quantidade atesta que não teve uma doença gastro intestinal diarréica. O exame radiológico do esqueleto não mostra sinais de neoplasias malignas que metastizam para as estruturas ósseas. A ausência de sinais de escaras de decúbito fala contra doenças caquetizantes, neurológicas paralisantes. , e todas as que exigem decúbito prolongado.
É interessante destacar que, o encontro de um bolo fecal de razoável quantidade, consistindo de partículas de pequeno tamanho, em um indivíduo praticamente desdentado, é altamente sugestivo que este estivesse sendo mantido com dieta semi-líquida, provavelmente à base de papas e mingaus.
Além disso, a presença de grande quantidade e variedades de grãos de pólen nas fezes, levou-nos à hipótese de que o indivíduo ingeriu mel, em ocasião próxima da morte. Esta substância contém normalmente grande quantidade e variedade de grãos de pólen e, além de alimento é utilizado por muitos povos, desde a antiguidade, como medicamento ou veículo para outros medicamentos.
Um dos usos mais freqüentes do mel é como expectorante, na composição de xaropes. Baseado nesse elemento e nos acima citados, é factível supor que a causa mais provável da morte possa ter sido uma infecção do aparelho respiratório, que constitui causa mais freqüente de óbito em indivíduos idosos.
– O resultado da datação pelo método do Carbono 14 a partir do colágeno retirado do corpo em exame foi IOD (mais ou menos 70 anos).
– O corpo estava inumado provavelmente em uma região de clima desértico. Os pêlos com os quais foram confeccionadas as vestes guardam bastante semelhança com os dos camelídeos (llamas e guanaco), animais tipicamente andinos.
– As características das vestes indicam que este individuo pertencia a um povo com uma técnica têxtil altamente elaborada, que utilizavam provavelmente tear horizontal e conheciam tinturas e técnicas de tingimento de fios, capazes de garantir a tonalidade dos tecidos por mais de 1000 anos.
– A data da morte, e essas características apontam como sítio mais provável o deserto da costa do Pacífico, isto é, sul do Peru (principalmente a península de Paracas) e norte do Chile,região que foi habitada por povos com grande habilidade têxtil , desde tempos bastante remotos.
A múmia em questão está exposta no Museu do Instituto Oscar Freire, anexo à Faculdade de Medicina da USP, na rua Teodoro Sampaio 111.