As pernas esticadas do compasso do relógio marcavam seis horas e muitas gentes perpassavam umas pelas outras ganhando terreno para tomar o trem naquele fim de tarde do outono. Simplesmente embrulhos coloridos, sacolas, mochilas e que tais servem de escudo e atrapalho no anseio de tomar postos naquele trapiche ferroviário. Enquanto uns aceleram o passo, outros se deixam ficar, e na varanda da estação espiam aquele acotovelamento humano; alguns comem por vício, outros por fome e tantos outros por falta de tempo. O trottoir das damas do amor lascivamente se insinua aos passantes; os habitués acostumados à presença delas quedam em algum cumprimento. São mulheres balzaquianas, entre trinta e quarenta anos, desgastadas pela vida que o destino selou. O serviço barato, vinte reais se tanto, atende à classe dos embarcantes e desembarcantes. Lá fora os ambulantes apregoam suas mercadorias. Ao redor do prédio, seguidas banquinhas, caixotes, carrinhos de mão servem de balcão aos produtos comercializados. Tem de tudo. Petiscos, chocolates moles, bolachas murchas, abacaxi no palito, meias e cigarros made in Paraguay, gorros a la Bob Marley e o séqüito de cães que recolhem as sobras e assustam os intrometidos. Os marreteiros do pedaço são preciosos informantes que orientam os perdidos, anunciam milagres e animam com seus bordões a entulhada Rua Mauá. De uma ponta a outra uma atividade mercantil múltipla e variada se estende. Portas pequenas e grandes mostram a boca do prédio, geralmente escuras e um cheiro azedo exala naquela confusão de incensos, pretos velhos e velas pretas. Os brechós sucedem-se exibindo roupas em varais vergados pelo peso. Os donos à porta, sentados em ordinárias cadeiras de madeira, assistem desolados àquele vai e vem de pessoas. Ali adiante, um menino, de dez ou doze anos, estendido na calçada, chapado, dorme o sonho da droga consumida. Pés descalços, franzino, mãos recolhidas de forma uterina exibe um rosto marcado e definido pelo desdém da vida, da mãe que não teve, da escola que não foi, do lar que nunca existiu. E naquele bordel a prostituta de peitos salientes se mostra à janela oferecendo um corpo usado a preço vil. Vem, vamos fazer nenê! Da porta do hotel, hóspedes vespertinos saem sem obrigação em busca do delito. São gigolôs que protegem suas mulheres, querubins do inferno. Debaixo do pórtico da estação, imagino se aquele povo suburbano teria sonhos, desejos. Acho que não! A dura jornada diária da vida despovoa a imaginação daqueles desafortunados. Serão todos? Não, não serão todos. São tão anônimos que protagonizam histórias que nunca ouvimos. Que estranha convivência na Luz. Do retângulo formado, na frente temos o antigo Jardim Botânico e seu vizinho, a Pinacoteca. Às suas costas, mais a oeste, a Estação Pinacoteca, antigo DOPS e a glamourosa Sala São Paulo, que sucedeu à Estrada de Ferro Sorocabana. Bem perto dali a Rua dos Andradas, onde nasci, General Osório, Triumpho, Protestantes, Couto Magalhães e Mauá. Este sim foi o personagem que conduziu a Vila de Piratininga à megalópole que é São Paulo. De cento e vinte casas rodeadas de fazendas e famílias que só saíam de suas herdades para as procissões religiosas ao conhecimento do mundo como grande pólo produtor do ouro verde foi de um empreendedorismo arrebatador. Somente a tenacidade e seriedade de Irineu Evangelista de Sousa conseguiriam tal feito, sua respeitabilidade ganhou o aval do Barão Lionel Rotschild. Pioneiro de empresas de navegação, gás, bancos, entre outros, funda em 1860 na Inglaterra a The São Paulo Railway Company Ltd. (SPR). Durante sete anos enfrenta monumentais dificuldades, vencer a Serra do Mar e estabelecer na Vila de Paranapiacaba (do tupi guarani – o local de onde se avista o mar) um complexo sistema “funicular de planos inclinados, onde locomotivas estacionárias fazem descer e subir os trens através de cabos de aço tracionados”; foi então sacaneado por seus sócios ingleses que o deixaram a ver navios, não honrando uma divida de 500 mil libras esterlinas. A Estação da Luz foi oficialmente inaugurada em 1867, além da concessão por noventa anos, tinha ainda por trezentos e sessenta meses exclusividade de acesso ao porto de Santos. A Inglesa, como era conhecida, irradiou o crescimento do bairro da Luz, visto que os barões do café aqui chegaram de suas fazendas e construíram magníficas mansões no bairro dos Campos Elíseos. Aproveitando a comodidade do urbanismo passaram a desenvolver na cidade outras atividades, fomentando o desenvolvimento. Com sua arquitetura e materiais importados, tornou-se o point da aristocrática sociedade. Sucessivas construções e novas proporções foram executadas no edifício ferroviário. Até que em 1º de março de 1901 inaugura-se oficialmente o prédio da nova estação e a chamada Serra Nova passa a escoar seis milhões de toneladas de café. A nova edificação sofre rebaixamento do seu leito férreo, pontes metálicas viabilizam o transporte de rua e a cobertura exibe uma arcada com trinta e nove metros de vão livre. “O sucesso é tal e a curiosidade tamanha que dado o contingente de visitantes o superintendente William Speers determina a cobrança de 200 réis para assistir às partidas ou chegadas dos trens”. O cotidiano se insere na nova paisagem da cidade. Apesar dos ingleses retirarem mais do que investiam, sua contribuição foi decisiva na iluminação pública, no saudoso bonde de lata, no telégrafo e no futebol trazido por Charles Miller. Anos mais tarde, exatamente em 1946 nas vésperas de passar o controle da ferrovia acontece o pavoroso incêndio que o jornal O Correio Paulistano assim descreve: “Do velho e austero edifício da Estação da Luz só restam agora a ala oeste, onde funcionam a chefia de Tráfego e o departamento de bagagens, e as paredes da ala leste, em conseqüência do violento incêndio que quase a destruiu completamente na madrugada de ontem. Durante sete horas, o fogo lavrou intensamente, exigindo dos bombeiros um trabalho superior às suas forças, pois que o incêndio que ocorreu às 2.15 foi um dos maiores que têm ocorrido nestes últimos tempos. O fogo ao que parece, foi provocado por um curto-circuito nas instalações elétricas do terceiro andar do edifício e se alastrou com incrível rapidez às dependências, o que exigiu grande trabalho dos bombeiros (…) para combater, enfrentando a falta de água, (…) as chamas que atraíram para o local milhares de pessoas (…)”. Ainda, “Eis senão quando, dos olhos brancos do relógio, começou-se a quebrar e a derreter o esmalte, deixando as pupilas escuras e vazias. Os velhos ponteiros fidelíssimos ao tempo continuavam imperturbáveis em meio ao fogaréu e, à chegada das quatro da madrugada, o som das badaladas encontrou-os pontuais. Dez minutos depois, o calor os fez retorcerem-se e tombarem, e do velho marcador de horas nada mais havia”. Decorridos doze anos do incêndio, lá estou eu empregado na qualidade de estafeta da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, agora encampada pela Rede Ferroviária Federal S/A. Encontro-me no terceiro andar da estação, lotado no Departamento Jurídico, tendo como chefa a dona Eva da Cruz Feliciano. Senhora de ar severo, que contrapunha com a subchefa Julieta Lopes. As demais meninas, Abigail, Helena, Ludmila e Julia, completavam com o contínuo Armandinho o staff de apoio aos procuradores da estrada. O grandão do departamento era o Dr. Orlando Lambert, cujo escritório ficava no primeiro andar, próximo à biblioteca. Gostava muito de ir à biblioteca, as estantes, aquela mesona central e as poltronas revestidas de couro deixavam-me contente. Ia lá sempre a mando. Paulo, dizia-me o Dr. A.A.A. Barbosa, traga-me o Pontes de Miranda. Morava naquela época em Eldorado Paulista, junto à represa. Longe pra chuchu! O microônibus demandava duas horas de viagem, com ponto final numa travessa da Rua Maria Paula. Caminhava até a estação, visto que o expediente começava ao meio dia. Levava um lanche reforçado que mamãe com muito zelo preparava. De terno e gravata apresentava-me todos os dias. Arquivava ações, colecionava as fichinhas do Íncola e transcrevia datilograficamente as imensas e enfadonhas cartas de sentença. A fotocópia veio mais tarde. Aqueles malditos sten’cil e gelatina amargavam o dia. Foi um aprendizado muito proveitoso. As conversas mantidas em tom cerimonioso, quase oficial, marcavam a fluência dos vernáculos corretos e ausência de palavras chulas, gíria jamais. Tempos depois, fui encarregado de correr os fóruns da capital para ver o andamento das ações e retirada de autos. Para tanto, era servido por um carro oficial, chapa branca, cujo motorista Orlando foi companheiro de muita cerveja bebida. Conhecia as dependências da estação como ninguém. Só não gostava de ir ao arquivo da torre do relógio. Era um calor infernal. A escadaria de madeira, o pó acumulado por décadas deixava qualquer um em bagas de suor. Nas minhas idas e vindas pelo prédio pude conhecer pessoas de muitos créditos. Principalmente o senhor Mariano, negro, contínuo da superintendência que com simpatia e sorriso largo recebia a tudo e a todos. De confidência a conselhos, procure o Mariano. O Zilbo, seu genro, com ele fazia dupla no atendimento à diretoria da estrada. Da janela do escritório a exuberância do Jardim da Luz, pontificado pelos quase extintos fotógrafos lambe-lambe, a presença do Liceu de Artes e Oficios e um pouco mais adiante a igreja de São Cristóvão. E a rua das noivas, bem no canto onde o bonde dobrava a esquina. Quantas vezes não fiquei na murada da estação, perdido em meus pensamentos, vendo a azáfama daquele povo? Apesar da severidade da vida, o meu grande prazer era comer um sanduíche de presunto cru no restaurante do Julio, que ficava na Rua Mauá. Ou ainda, na mercearia do alemão onde se comia um belo salsichão. Tudo passado, restaram ruas feias e sujas, prédios cambaleantes, anônimos personagens que passam esquecidos da própria existência que a história não consagra e as prostitutas de rua vingam pela paga do amor e a criança ao lado, cheia de droga, inocente, desperta para a maldade da vida.
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