A conquista da Capela do Morumbi

O ano era 1955, julho, mês de férias escolares e a nossa turminha resolveu fazer uma expedição com um ambicioso plano de conquista. Todos morávamos no Brooklin Velho pelas Ruas das Acácias, das Ortências, Santo Arcádio, das Margaridas, Álvaro Rodrigues, Sempre Vivas e outras do bairro.<br>Os nossas divertimentos: futebol, taco, bolinha de gude, pega-pega, mocinho e bandido, tamboreio, peteca, varetas, mico, pião, empinar papagaios, fazer “barragens” para segurar a água de chuva, e tantos outros. Num desses encontros, nasceu um plano em que queríamos realizar algo diferente, algo que marcasse o grupo. O plano aceito foi de entrar dentro da igrejinha de barro que se situava no topo do Morumbi, ou melhor dito, no ponto mais alto da Avenida Morumbi, e deixar ali uma cartolina com um nome para a mesma. E com a anuência de todo o grupo, apesar de somente sete se voluntariarem para a sua execução.<br>Estávamos todos influenciados pelos seriados tipo “mocinho/bandido”, que assistíamos de graça e acompanhávamos com paixão no Cine Meninópolis, aos domingos à tarde. É claro, como prêmio depois de assistir à missa matinal e freqüentar as aulas de catecismo antes da sessão de cinema, magistralmente orquestradas pelo Padre Carlos Acquani.<br>A forma de chegar ao nosso intento era bem clara, escalar pela parte traseira e através de uma abertura redonda que existia no alto, adentrar a igreja e deixar a cartolina com o nome para a mesma, pois até então ninguém sabia a sua denominação ou santo de devoção a que era dedicada. Depois de muita conversa, sugestão e discussão, o nome escolhido foi São Michel, pois um dos participantes do grupo lembrou com detalhes o filme que relatava a heróica conquista do monte St. Michel.<br>Os apetrechos necessários para a empreitada foram enumerados pelo grupo: cordas, lanternas, velas e fósforos, bolachas Maria, garrafas de água, vários outros apetrechos e o papel cartolina com o nome de batismo a ser dado à igreja, inclusive mencionado o nome de todos os participantes. Até o meu cachorro Tigrinho foi escalado para garantir a nossa segurança. Houve uma sugestão de levarmos uma bússola, pois o pai de um deles era agrimensor. Não foi necessário, pois o caminho era certo e conhecido por todos.<br>Marcados o dia e a hora, lá fomos nós marchando, cerca de sete garotos rumo ao alto do Morumbi. Cordas amarradas dando a volta ao ombro e à cintura, lenços com quatro nós na cabeça, sacos de pano com os utensílios e eu levando o Tigrinho, que era puxado a contragosto, amarrado pelo pescoço a uma corda. Joseph, meu irmão, que redigiu o documento, levava o precioso “pergaminho”, objetivo e prova a ser depositado no altar da capela, que passaria a possuir um nome daí em diante.<br>A descida pela Avenida Morumbi partindo do Brooklin até a ponte do Rio Pinheiros foi relativamente fácil. Passamos pela Lilly, a Balila e algumas fábricas, e logo adiante víamos a caixa d’água da Durex e a vista de uma casa em estilo medieval com suas torres imitando um castelo. Poucos carros passavam por nosso grupo, havia também um ônibus teimoso da CMTC, parado perto de uma paineira, onde tinha seu ponto final, com seus vários tambores de óleo diesel largados para abastecimento.<br>Cantávamos e relembrávamos os detalhes do último capítulo do seriado assistido, adivinhando como seria o possível final feliz: será que o Flexa Negra escapará da explosão? Falávamos também das histórias lidas nos “gibis”, que normalmente circulavam de mão em mão na turma. Meu irmão que era o mais lido de todos, contou a respeito de “Winnetou”, herói do escritor Karl May.<br>A ponte era estreita, toda feita de cimento, ladeada de dois arcos com travessas amarrando por cima. Havia passagem para pedestres em um dos lados e em algum lugar estava escrito 1943, ano do meu nascimento.<br>Logo adiante após a ponte à esquerda, no início da subida da Morumbi, um empório onde paramos para encher as garrafas de água e comprar doce de leite, maria mole, cavacos, paçoca, pé de moleques e tomar caçula, pois o dono era pai de um colega de classe e conseguimos alguma vantagem. Pelo lado direito da avenida já se percebia algumas construções ao longe, que davam início ao bairro Real Parque (antigamente existia no local uma olaria, de propriedade da família “Petrella”).<br>A subida da Morumbi foi a mais cansativa, e o Tigrinho quase escapou para brigar com um cachorro que cruzou o nosso caminho. Mato e mais mato de todos os lados, somente uma ou outra mansão com seus muros altos a desafiar a nossa curiosidade. Mais adiante, já próximos do nosso destino, do lado esquerdo avistamos um casarão sem muros, que parecia uma sede antiga de fazenda. Nem pudemos chegar perto, pois cães bravos nos ameaçavam, bem como o nosso destemido e fiel cachorro.<br>Finalmente, chegamos perto do topo da Avenida Morumbi, e eis que surge, logo após a curva à direita, a tão esperada capela, toda feita de barro, sólida, como que desafiando o tempo. Alguém questionou porque ela não se dissolvia com a ação da água das chuvas, já que não era feita de cimento. Estávamos todos cansados, porém alegres e nos sentíamos corajosos para concretizar a missão.<br>Após um merecido descanso, logo tratamos de organizar a escalada e nos reunimos nos fundos da capela. Havia para nossa sorte, um cano de ferro fincado bem acima da entrada aberta no alto, abaixo do telhado. Foi um tal de tentar laçar, imitando os “cowboys” dos filmes, até que fixamos a corda. Nem todos conseguiram o intento da escalada, especialmente um gordinho, que mesmo empurrado por alguns, desistiu depois de algumas tentativas alegando “cãimbras” e se voluntariando para ficar e tomar conta do Tigrinho.<br>Quando chegou a minha vez, desci pela abertura para dentro da igreja. Fiquei bastante decepcionado, pois logo notei o interior da capela completamente vazio, iluminado apenas pelas velas e a lanterna que trouxemos. Esperava encontrar um altar ou algo semelhante para ali piedosamente depositarmos com honra a prova da nossa conquista.<br>Ficamos ainda um tempo divagando se poderia haver no local algum espírito ou alma penada, ou ainda alguém enterrado no solo. Talvez tivesse sido ali o local de lutas sangrentas entre índios e portugueses pela conquista do Morumbi, alguém lembrou. Repentinamente ouvimos um grito vindo lá de fora: “cai fora turma, alguém está vindo para cá”.<br>No alvoroço que se seguiu, a cartolina já fixada numa das paredes, as velas acesas e alguns utensílios pelo chão foram tudo que sobrou, todos trataram de sair o mais rápido possível. Deixamos para trás na penumbra da capela, todo o nosso heroísmo e coragem.<br>Por muitos anos ainda, a capela ficou no mesmo estado, bravamente resistindo ao tempo, sem nome e sem devoção, esperando um dia ser lembrada, não pelo nosso feito, mas pelas mãos obreiras e caridosas que a ergueram dedicada a um santo em particular, pagamento de promessa ou por algum motivo nobre.<br>Se alguém souber qual, por favor, restaurem o nome original da Capela do Morumbi que marcou especialmente a nossa infância. Caso contrário, sugiro reconfirmar o nome de “São Michel”, escolhido e merecidamente conquistado por um grupo de sete corajosos e pequenos “bandeirantes”, mais de meio século atrás.<br><br>e-mail do autor: [email protected]