Lá pelos idos de 1950, o traçado da atual Avenida Santo Amaro foi amplamente reformulado. Onde, por longos anos, havia uma estreita e esburacada via de acesso à Santo Amaro, surgiram duas largas pistas asfaltadas, separadas por um canteiro central arborizado, desde o Largo do Itaim Bibi, até a confluência dessa avenida com a Avenida João Dias. Progresso em toda a região! No Brooklin Paulista, por onde a renovada avenida passava, foram inauguradas duas seletas pizzarias: na entrada Rua Joaquim Nabuco, a Padaria e Confeitaria Danúbio Azul, de Manuel Joaquim Coelho e, na esquina da Santo Amaro com a Rua Bernardino de Campos, a Panificadora Petrópolis Ltda., de Albano Jesus de Miranda. A agradável novidade fez famílias inteiras passarem a freqüentá-las em finais de semana, pois não havia no bairro, até então, quem servisse uma vitamina ou um misto-quente no balcão. A Danúbio Azul, tempos depois, inovou, instalando no salão dos fundos um televisor branco e preto, a grande coqueluche da época. O movimento logo foi às alturas, sobretudo em dias de jogo. Mas discussões, gritarias e palavrões que se ouvia a cada gol marcado acabaram afugentando a sua tradicional clientela. Foi passando de mão em mão, deixou para trás a fama de pizzaria e converteu-se no maior ponto de referência da rapaziada e reduto sagrado da fogosa boemia local. Todos marcavam encontro na Danúbio, que diariamente virava uma festa. Senhoras e mocinhas de família, no entanto, que se arriscassem a pôr os pés na Rua Joaquim Nabuco, teriam de passar, de fininho, do outro lado da calçada. Na Danúbio havia gente de todos os naipes, do metido a poliglota Carlos Verati, um inteligente pintor de paredes de origem circense, ao respeitado jornalista Edmundo Grogorian, titular de um horário noturno na TV Record. Entre a ruidosa irreverência de um e as pausadas e sensatas considerações do outro, conviviam professores, doutores, universitários, empresários, anarquistas, radicais de esquerda e direita, solteirões frustrados, maridos traídos, aposentados, intelectuais de fachada e filósofos de botequim. De piadistas dos bons, havia uma penca. Alta madrugada, quando o teor etílico do ambiente chegava à gradação máxima, todos confraternizavam num alvoroço sem fim. Discutia-se um sem-número de assuntos, mas quando o tema esbarrava em política ou futebol o clima esquentava; todos gritavam ao mesmo tempo e ninguém mais conseguia se entender. Um caos! No auge da confusão, um exaltado ademarista e corintiano de carteirinha, presença obrigatória das noitadas, virava destaque e alvo predileto das atenções. Por absoluta dificuldade em se expressar, por ser surdo-mudo, fingia-se de vítima, agitava-se e gesticulava a cada provocação, sem dar a menor trégua aos demais convivas. Para ele, bater ponto na padaria passou de teimosia a vício irreparável. Com o raiar do dia, mais exausto que enfurecido, mas sempre esbravejando, mandava-se para casa quase conseguindo falar.
Em frente à Danúbio Azul, no número 45, funcionava o Bar e Lanches Belo D'Ouro. Sanduíches de lingüiça na chapa, ovos coloridos cozidos de véspera, sardinhas encharcadas de óleo rançoso, volumosos pastéis e almôndegas, café requentado e um arsenal de bebidas de baixa e duvidosa qualidade compunham o grosso de sua fonte de renda. O piso, desgastado e encardido, passava semanas sem ver água e escovão. Os vidros da copa, no fundo do bar, ensebados e grudentos, exibiam, em letras disformes e pintadas a cal, o preço e os pratos do dia. Freqüentado por tipos das mais variadas camadas sociais, também tinha o futebol como pano de fundo. Apostas, bolões, rixas e gozações preenchiam o seu alucinante cotidiano. De um rouco e anacrônico rádio de válvulas saíam os gols e a situação das partidas em andamento, infernizando a vizinhança e levando à loucura o dono do prédio, que morava em cima do bar. Adoniran Barbosa encarnava o membro mais ilustre da fiel freguesia. Às noites, chegava sempre de táxi a caminho de casa, na Cidade Ademar. E enquanto o motorista roncava dentro do carro estacionado na porta do bar, lá dentro ia ele fumando e bebendo em tempo integral, quem sabe se inspirando naquele estapafúrdio cenário, para dar letra e música a mais uma de suas famosas composições populares. No início dos anos 1960, uma longa batalha judicial culminou com o despejo do concorrido boteco. Balcões e armações corroídas, mesinhas e cadeiras desconjuntadas, por não mais se agüentarem de pé, eram aos pedaços atiradas no meio da rua. A inesperada mudança pegou de surpresa respeitáveis e aposentadas baratas, correndo sem rumo para todos os lados. Findava, assim, uma antiga e traumática relação de amor e ódio, entre o italiano, proprietário do prédio, e o português, dono do bar. Um outro estabelecimento inaugurado na ocasião, a Pizzaria La Speranza, mantém-se há muitos anos no mesmo local da Avenida Morumbi. Herdou, com sucesso, a clientela familiar que foi se afastando da inesquecível Danúbio Azul, hoje nem sombra de seu passado de glórias.
e-mail do autor: [email protected]