Quando entrava o mês de dezembro na cidade de São Paulo por volta de 1960, as famílias procuravam adquirir uma famosa cesta de natal para garantir a felicidade gastronômica nas festas de fim de ano.
Do rádio ouvíamos o anúncio: Acaba de chegar no meu lar, a cesta de Natal Amaral… É Natal, é Natal, é Natal! Havia 5 opções de tamanho, eram abertas na noite do dia 24 e parece que as crianças já sabiam, disputavam as posições mais próximas para fazer a busca, se debatiam num empurra-empurra frenético. Familiares que estavam calmos caíam em luta corporal, não pelos produtos alimentícios, mas desesperados para encontrar e adorar aquele herói careca, também chamado muitas vezes de gênio mongol das Arábias, arquétipo inesquecível do período pós-guerra, baluarte do consumismo, imbatível ídolo pagão!
Descansando no meio da palha que protegia garrafas, entre as nozes as frutas cristalizadas e outras guloseimas… Com sua fisionomia inabalável, lá estava ele, o fantástico, carismático, sensacional e incrível: Gigante Amaral! Surgia com a postura firme e a presença marcante, ostentava um sorriso sarcástico e um bigodinho tipo oriental, com a faixa no peito, vestia apenas uma sunguinha preta com muita discrição e respeito. Essa figura bizarra exerceu uma magia inexplicável em toda aquela geração. Me lembro que morávamos no bairro do Cambuci na Rua Antonio Tavares uma travessa da Lins de Vasconcelos, que os vizinhos também se divertiam com ele de tudo que era jeito. O Gigante Amaral foi apresentado em duas versões, uma com os braços cruzados e outra segurando a casa e o carro como quem oferecia uma dádiva. Mas como sempre houve a maldade… Devemos nos penitenciar: exageramos na dose quando o colocamos sobre bombinhas de Cr$50,00 lançando-o aos céus junto com latas de extrato de tomate! Qual moleque não o usou como alvo para estilingadas de mamona? Quanta crueldade! Atos inconseqüentes acabaram contribuindo para o seu desaparecimento quase total, dificultando a vida de pesquisadores.
Atualmente é venerado como um líder por colecionadores, é considerado o mais raro entre tantos outros bonecos promocionais que logo depois também brilharam aqui em São Paulo como o elefantinho da Shell, o arroz Brejeiro, o Brasilino e a charmosa vaquinha Mococa.
Arrependidos, os destruidores do passado se converteram nos mais saudosos seguidores do querido gigante e agora procuram resgatá-lo garimpando e fuçando em feirinhas de antiguidades que acontecem em nossa cidade aos final de semana, em Pinheiros, no Bexiga e em outros bairros…
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