Quando eu tinha dez anos, o sonho da minha vida era possuir um bambolê. Quem daquele tempo não se lembra da criançada na rua bamboleando pra cima e pra baixo, competindo uns com os outros para ver quem ficava mais tempo girando o tal brinquedo na cintura, nas pernas, nos braços e no pescoço? Dava uma dor de pescoço depois! Pois eu só conseguia bambolear com bambolê emprestado e o dono ou dona sempre queria de volta antes que eu pudesse aprender a usar a coisa direito.
Bambolês vinham em cores variadas, sendo comuns o vermelho, o amarelo e o azul, mas existiam bambolês verdes, pretos e roxos também. Pra mim qualquer cor serviria, contanto que fosse só meu. Acho que não devia ser muito caro, porém, meu pai não comprava brinquedos, a não ser no Natal e em aniversários, não porque fosse um mau pai, mas porque não era seu costume dar brinquedos aos filhos a qualquer hora, e também porque seu salário no cartório onde trabalhava não era grande coisa.
E eu fui ficando sem o meu bambolê, olhando as outras crianças, esperando que de algum jeito fosse possível.
Estudava no Grupo Escolar Rodriques Alves, no início da Paulista, perto da antiga Sears. Uma tarde depois da aula ficamos sabendo que haveria uma venda especial de brinquedos na porta da Sears, brinquedos sem caixa, levemente danificados. E haveria bambolês também.
Minha coleguinha bem informada me avisou que se eu quisesse um, deveria chegar na hora, pois muita gente estaria disputando os brinquedos.
A liquidação começava às 2 e meia da tarde e durante o dia todo na escola eu quase não conseguia prestar atenção a coisa alguma. Lembro que o preço dos bambolês seria somente um cruzeiro e essa quantia eu consegui da minha mãe, tirada do dinheiro da feira.
Saía da escola às 2 horas. Daria tempo para chegar à porta da Sears sem maiores problemas. Nem consegui comer o lanche de pão com goiabada, de tanta angústia sobre aquele bambolê. Será que eu consigo?
Quando deu o sinal do fim da aula, agarrei minha malinha e corri. Desci as escadas do Grupo Escolar de dois em dois degraus e quase passei por cima das outras crianças. Corri como nunca havia corrido na vida, atravessei a Paulista mais rápido do que os atletas da São Silvestre e continuei no mesmo pique até a Sears.
A calçada em frente da loja parecia um local onde uma bomba havia sido detonada. Papelão por todos os lados, papéis voando, pedaços de brinquedos no chão. Mães e crianças se engalfinhado por um determinado brinquedo. No meio da confusão total, dois bambolês (um vermelho e um azul, me lembro), irremediavelmente entortados, largados sem ninguém que os disputasse…
Apanhei o menos quebrado (o azul) e coloquei na cintura. Nem se parecia mais com um bambolê. Levei pra casa só pra dizer que havia conseguido, mas não dava pra girar aquilo de jeito nenhum.
Pelo menos não gastei o cruzeiro da minha mãe, que me deixou comprar um pacotinho de doces com ele.
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