Infelizmente, como qualquer grande metrópole, esta cidade tem também seu lado feio e triste – favelas e cortiços, discriminação, pobreza.
Tive uma grande experiência de vida junto à favela do Buraco Quente, que começava na Avenida Washington Luiz e se estendia até a Luiz Carlos Berrini, ocupando todo o espaço onde hoje está a Avenida Água Espraiada.
Fui aluna, já adulta e casada, da EE Professor Ennio Voss, na Avenida Portugal e posteriormente professora e diretora. Quando aluna, o Ennio era uma escola freqüentada pela elite da região do então chamado Brooklin Novo. As festas juninas da escola eram muito ricas porque a Associação de Pais e Mestres conseguia, dos familiares, doações como eletrodomésticos, máquina de lavar roupa e até, lembro-me, um Fusca "O", com as quais se faziam sorteios, bingos e rifas. Com o passar do tempo, a clientela foi mudando e começamos a receber alunos vindos da favela, que cada vez mais se estendia e ampliava, desde a Avenida Washington Luiz em direção à Berrini, pelas margens do córrego Águas Espraiadas, aumentando também os problemas de falta de saneamento, de lixo, de ratos e baratas que sempre acompanham a miséria e a extrema pobreza. Consequentemente a clientela original da escola foi se alterando rapidamente até que passamos a atender basicamente a clientela desvalida. Aí então o papel da escola ampliou-se e modificou-se porque passou a incorporar a necessidade de café da manhã, lanche e refeições às crianças que, muitas vezes só as tinham na escola.
Acompanhando a pobreza vem sempre a ignorância e a violência familiar – falta de higiene mínima, bebedeira dos pais, parentes e vizinhos, agressões físicas e psicológicas, estupros, principalmente às mulheres e crianças.
Num primeiro momento eu era professora de Didática do Curso de Magistério e responsável pelos estágios. Esta situação deu-me a oportunidade de chegar muito próximo dessa clientela e de seus problemas, trazidos a nós pelo dedicado corpo docente com que contávamos, principalmente os de pré-escola (que ainda era responsabilidade também do Estado) e da lª à 4ª séries. Imaginem os leitores a complexidade daquela escola, com 3.200 alunos, nas idades mais diferentes – pré-escola, lº grau (lá até a 8ª série), 2ºGrau (lª a 3ª séries) comum diurno, 2ºGrau noturno (outra realidade), Magistério (lá a 4ª série) diurno, nos dois períodos, e Magistério noturno! Eu a apelidei de supermercado pedagógico, porque tinha de tudo.
Assim, rapidamente os professores perceberam que não bastava ter um currículo e dar aulas, com conteúdos voltados para alunos que fariam uma faculdade. Era preciso rever conteúdos, acrescentar conteúdos de higiene, saúde, prevenções a abusos, drogas, educação sexual, como também rever didática (como dar as aulas) e materiais e reformular o modelo de reunião com pais. Tivemos que aos poucos capacitar até mesmo os inspetores de alunos e serviçais. Nós, professores do Curso de Magistério, e nossos alunos passamos, na medida do possível, a trabalhar em conjunto com os professores, estudando com eles propostas didáticas diferenciadas. Nossos alunos confeccionavam material didático, auxiliavam e aprendiam a utilizá-los, a vivenciar uma clientela até então desconhecida para todos nós. Entendemos que não poderíamos deixar nossos colegas professores sozinhos, não porque lhes faltasse competência, mas porque a solidão, num quadro como este, poderia ser-lhes prejudicial em vários aspectos. Como foram galhardos e heróicos! Dessa experiência, houve ganho e aprendizado para todos dentro daquela escola. Gostaria de nominar cada um deles aqui para prestar-lhes homenagem, mas o receio de esquecer algum nome, o que seria imperdoável, me impede de fazê-lo.
Meus estágios também foram replanejados e passaram a ser feitos em colaboração com os professores de Sociologia, Filosofia, Ciências e Saúde. Nossos alunos passaram a ver na prática os conceitos abstratos dessas disciplinas. Passamos, todos, a olhar o ser humano por muitos outros ângulos, que anteriormente nos passavam desapercebidos. Fomos a campo, isto é, fomos para dentro da favela, visitar as casas, as famílias os lugares, a beirada do córrego. Para isso, os alunos eram previamente preparados pelo corpo docente, entrando com um olhar agudo na observação para posterior discussão dos problemas e das possibilidades de auxiliar a sanar pelo menos alguns, como se diz: fazer a nossa parte, contribuir com pelo menos uma gota de água para apagar o incêndio. Isto resultou em conseguirmos, junto à Prefeitura, a instalação de caçamba de lixo em pelo menos dois trechos da favela com a conseqüente coleta e a instalação de um orelhão comunitário e muitas ações de orientação e encaminhamento a problemas de saúde, de documentação, de assistências diversas. Muitas vezes fomos procurados por mães, inclusive gestantes que estavam passando fome, pedindo pelo menos uma refeição no dia. Como tínhamos problemas com falta de serviçais e para não dar simplesmente uma esmola, essas pessoas vinham após o horário das refeições dos alunos, geralmente com mais 3 ou 4 crianças, comiam e depois nos ajudavam com a limpeza dos pátios e banheiros.
Tivemos caso de senhores preocupados com alunos que fugiam pelos muros que vinham nos relatar ocorrências externas e se propuseram a auxiliar nesta vigilância, ficando inclusive nos portões. Em contrapartida a muitos desses pequenos serviços, emprestávamos a quadra da escola, em determinado horário, para que a utilizassem e ao mesmo tempo evitassem depredações ao patrimônio público. Quando estas pessoas conseguiam emprego eles nos avisavam e deixavam de vir para as refeições. Nunca tivemos problemas com eles, pois apesar de estarem em estado de miséria, demonstraram muita dignidade e amor próprio.
Havia na Avenida Portugal, do lado oposto à escola, na favela, uma vendinha, do senhor Antonio, na frente da qual instalamos o orelhão. O senhor Antonio era um líder respeitado pelo pessoal, e era com ele que falávamos para preparar nossa visita com os estagiários. Senhor Antonio agendava o dia e o período e me dizia: dona Ivette, pode trazer suas meninas sem medo que todas terão o maior respeito. Dito e feito. Fiquei sabendo por algumas mães que no dia e hora marcada o senhor Antonio percorria a favela, avisava a todos e tinha pessoas encarregadas de manter a ordem. Os bebuns eram trancados dentro dos barracos, postos para dormir, com ordem de sair só após nossa retirada.
Da minha vida profissional posso afirmar com certeza que este foi o período mais rico e de maior aprendizado que vivi. Este período se mescla com sala de aula, direção de escola e coordenação pedagógica, daí tanta riqueza. Guardo histórias tristes, engraçadas, alegres. Não sei se os leitores deste site teriam interesse e paciência para conhecer mais sobre o tema. Agradeceria manifestações a respeito, porque nem sempre o que é prazeroso e interessante para uns o é para outros.
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