Madrugada. Meio da década de 1970. Um quarentão, cabelo pastinha, bigodinho e terno branco, entra no bar abraçado com duas mulatas citáveis. O sapato branco do homem contrasta com o colorido das roupas das duas damas da noite. Uma delas fuma uma cigarrilha tipo Kojac e a outra está visivelmente embriagada.
Os três descolam uma mesa e pedem uma cerveja. Na mesa ao lado, dois casais de estudantes comem um espeto de lingüiça. Dá pra apostar que as moças são de famílias honestas.
Em outra mesa, um cidadão solitário consome calmamente um lombo com fritas. É fotografo de um grande jornal e deve estar entre uma reportagem e outra. Há também cabeludos, executivos com pastas, artistas notórios, policiais, jornalistas, músicos, arquitetos, desempregados e prostitutas.
Esse era o famoso Bar das Putas, talvez por influência de uma tal de tia Olga, que ficava em cima de uma floricultura e de uma tal de Tia Silmara, que ficava em cima da oficina dos taxímetros Capelinha, que tinha seu reduto instalado ali perto que vangloriavam-se de iniciar jovens garotinhos na difícil arte de amar…
Também era conhecido como Sujinho, mas respondia, oficialmente, pelo nome de Superquente. Estava ali há alguns anos (desde 1966) na esquina da Avenida Consolação com a Rua Maceió. O Bar das Putas era um desses lugares baratos e abertos a noite toda, para onde convergia uma inumerável malta de notívagos. “Aqui aparece de tudo que não presta”, brincava o Baixinho, que trouxe o bar de Interlagos para o Jardim Paulista com a idéia de vender pizzas durante a madrugada. No início, o salão era mal iluminado e a freqüência barra pesada: moçada e malandragem ainda não se misturavam numa boa.
A mudança de pizza para churrasco, no cardápio, aconteceu ironicamente, na época do incêndio da TV Excelsior. Os donos do bar resolveram comprar uma churrasqueira e começar a vender carne no espeto. Ninguém sabia explicar qual é a relação entre fogo e churrasco, mas o fato é que a partir de então a casa começou a ser mais freqüentada, por todo tipo de gente. Principalmente na madrugada. Boa carne e bons preços.
Passados todos esses anos, as mulheres responsáveis pelo nome do restaurante atravessaram a rua e ficaram no botequim do outro lado da avenida. Coisas da moda. No Bar das Putas não era difícil encontrar o Fabio Júnior que, bem ou mal, preenchia alguns requisitos globais de fama e audiência. Ou cruzar com estudantes, intelectuais e artistas (Plínio Marcos, Adoniran, Wilza Carla, Barão, Ciganinho entre outros músicos, cantores e artistas).
De qualquer forma, ali se comia um lombo na brasa por cr$ 300 ou um frango a passarinho por cr$ 400, sem falar na cerveja, quase sempre bem gelada. Era possível pedir, também, alguns acompanhamentos, como fritas, arroz e feijão (desaconselháveis) e saladas. No início de seu funcionamento, o bar oferecia uma salada de cebola bem temperada acompanhada de pãezinhos. Com o tempo, os proprietários foram adicionando repolho à cebola, e como ninguém reclamava, a mistura foi aumentando até virar só repolho. Coisas da época da inflação.
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