No final de dezembro, na minha última viagem à amada São Paulo, tive o feliz privilégio de caminhar pelas ruas do centro, acompanhada do meu filho Vinícius. Tomamos o ônibus na Avenida Francisco Morato, descemos na estação Paraíso do metrô e fomos caminhando até o Mercado Municipal, apreciando tudo – pela Vergueiro, nos encantamos com a imponência do Centro Cultural, onde, na década de 30, nasceu o nosso saudosíssimo Pedrinho Mattar. E lá estava, majestosa como sempre, a Igreja Santo Agostinho. E fomos andando, respirando a possibilidade de, em férias, caminharmos com tranqüilidade e prazer, observando as pessoas, o comércio dos camelôs, as lojas já com pouco movimento após o Natal. E eu ia explicando amorosamente o trajeto, as histórias daqueles pedaços, com tantas vidas sofridas pelo caminho e tantas vitórias. Na Liberdade, a Rua São Joaquim, onde existe um templo budista interessantíssimo… A Casa de Portugal, imponente. Pela Avenida Liberdade tivemos o prazer de ver um grande Papai Noel japonês, de braços abertos e, confesso, engraçado, tal era o rosto redondamente feliz.
Mas foi na Padaria Santa Tereza que sentimos um acolhimento que, quando eu vivia aí, não tinha condições de perceber ou sentir, tal era a minha pressa e as aflições por atender ao chamado do relógio. Na centenária padaria fomos atendidos pelo senhor Pedroza. Uma educação, um zelo, que me chamou a atenção e senti o momento oportuno para uma breve conversa. Ele me contou que trabalhava ali há 36 anos, com um rosto tão calmo, sereno e feliz que me senti incentivada ao retorno dois adias após. Pois ele nos reconheceu, cumprimentou apertando nossas mãos, respeitosamente. Aliás, eu mesma aproveitei essa aproximação para mais um pouco de conversa: chegamos ali no mesmo horário e conseguimos nos sentar no mesmo lugar. Falei para ele das minhas saudades de São Paulo e que, no ano que vem, voltaria.
O senhor Pedroza me traduziu muito a cara de São Paulo – pronta para o trabalho, ano após ano, decidido, forte e feliz pelo que faz, compenetrado, consciente da sua função. Um senhor de cabelos brancos, não muito alto, atende lá na parte final da padaria do século XIX – desde 1892. Gente, a padaria é do tempo do final da Monarquia, quando Pedro II dava os suspiros finais como autoridade no país! Provavelmente ali algumas discussões republicanas aconteceram – quem sabe, discussões acaloradas… A crença de que a República nos traria o progresso, como sugeria o pensador francês Augusto Comte.
Ali se respira uma história vibrante, com grandes painéis de São Paulo pelas paredes, na parte mais alta. Sem contar a delícia da empadinha, da esfiha, do panetone, do brigadeiro e de tudo o quanto ali se ofereça.
Obrigada, senhor Pedroza, a sua gentileza foi um convite para outros retornos, com muita alegria e satisfação.
Dali nos dirigimos à Catedral, mas esse assunto é pra outro dia…
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