Um monumento, um momento

Desde criança eu sou apaixonado por monumentos, principalmente os antigos. Quando eu acompanhava minha mãe nas visitas que ela fazia a uma senhora doente que residia em Santana, passávamos de ônibus ao lado de um monumento que havia no inicio da Avenida Tiradentes. Eu punha então a cabeça fora da janela do ônibus para poder apreciar aquela obra em todas as suas dimensões. Com 9 anos de idade, eu não sabia a quem aquele monumento homenageava. Como toda a criança, a minha admiração era espontânea, gratuita, sem qualquer senso crítico. Não me lembro da primeira vez que vi aquele monumento, mas, foi tal a impressão que ele causou em mim, que sempre que minha mãe me levava para aquele passeio, eu ficava aguardando ansiosamente pelo momento em que o ônibus passava rente à sua base. Na ida e na volta. O cavalo alado, lá no alto na base sobre colunas, tendo sobre seu dorso um homem que segurava algo com extremo vigor, causava em mim um fascínio quase mágico. Ao vê-lo despertava em mim uma sensação de poder, de vitória, como se ele me ensinasse algo.
Logo entrei na adolescência e já não acompanhava mais minha mãe a Santana. Como residíamos na zona leste da cidade, onde moravam praticamente todos os nossos parentes, passaram-se pelos menos cinco ou seis anos até que eu voltasse a circular por ali. Eu estava então trabalhando como office boy e, preocupado em fazer o meu trabalho da melhor forma e o mais rápido possível, não dei conta de que aquela magnífica obra não estava mais ali. Certamente passei por ali outras poucas vezes, sem perceber a ausência do meu querido monumento.
Anos mais tarde, caminhando por uma das avenidas da Cidade Universitária, num dia cheio de sol, minha tranqüilidade foi subitamente quebrada por uma enxurrada de adrenalina, que trouxe à minha mente e ao meu coração um turbilhão de lembranças e sentimentos, tal foi o impacto da surpresa que se exibiu diante dos meus olhos: o monumento que tanto me havia impressionado quando criança estava ali. E junto a todas as lembranças e emoções que me invadiram naquele momento, eu me perguntei como eu não havia percebido, durante todos aqueles anos, que ele havia sido retirado da Avenida Tiradentes. Olhei demoradamente para aquele conjunto escultural, e vi nele a mesma grandiosidade de outrora. Senti-me feliz porque o antigo fascínio perdurara. Andei ao redor de sua base, e dediquei todo o tempo necessário para saborear cada detalhe.
Foi através da inscrição na sua base que eu descobri o homenageado. Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Contudo, naquele instante, parecia-me que era eu o homenageado. Como é maravilhoso reencontrar valores! Como é gratificante cultiva-los!

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