A Vila Canto do Rio (do Calffat)

Hoje eu estive lendo as lembranças do seu Agostynho, sobre a carrocinha de sorvetes, que ele conhecia em meados de 1955, lá pelos lados da Consolação… Eu também conheci e acho que era o mesmo vendedor, pois essa carroça era toda de madeira pintada, com um teto para proteger do sol, puxada por um cavalo. O vendedor ficava confortavelmente dentro dela, e dali mesmo servia seus clientes, sem descer.
Ele aparecia lá na Vila Canto do Rio, na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, 3552, defronte à rua Jundiaí e que foi construída pela Tecelagem Calffat, para abrigar funcionários, eram duas vilas, uma antes e outra depois da Rua Caconde. A tecelagem Calffat também ficava na Avenida Brigadeiro, bem defronte à Rua Caconde, bem próximo dali. Se quiserem ver como era ali nessa época, encontrem o DVD do filme “Chofer de Praça”, do Mazzaroppi, onde muitas cenas foram filmadas.
Bons tempos aqueles… Nessa vila, na casa nº 10, onde nasci em 1944, moravam meus avós, seu Theodomiro e dona Laura, e alguns de meus 10 tias e tios, solteiros na época. Lá passei uma parte muito feliz da minha infância e pré-adolescência. Moravam ali umas 25 famílias oriundas do interior paulista, gente simples, muito alegre e respeitadora e amigos também. Havia muita alegria e harmonia entre os vizinhos. Era um lugar de operários, onde todas as famílias moravam em boa casa, e tinham seu honrado trabalho na tecelagem ou no comércio vizinho.
No começo daquela década, entre 1950 e 1956, nas festas juninas, tudo ali ficava enfeitado com as bandeirinhas coloridas, e as pessoas se uniam para fazer a fogueiras de Santo Antonio, São João e São Pedro, as danças (chamadas quadrilhas), o pau de sebo, o pote de cerâmica com prêmios, a música tocada por sanfoneiros, quentão, batata doce, as moças solteiras, faziam umas simpatias engraçadas para saber se iriam se casar, era muito legal. Havia um grande número de crianças, mais moleques do que meninas (elas quase não saíam de casa), e todas as tardes, depois da escola, nós jogávamos uma pelada no cimentado central, onde todos falavam e gritavam ao mesmo tempo. No lugar de traves, usávamos qualquer coisa, sapatos, pedras, paus, o que tivesse disponível, e o jogo só acabava quando ficava escuro, ou quando a bola caía dentro da casa de alguém, ou quando quebrava uma vidraça… Aí todos sumiam num instante…
Quando surgiu a televisão, o 1º vizinho que conseguiu comprar colocava o aparelho na janela, para que todos compartilhassem dos programas e do futebol, à noite todos iam para lá com suas cadeiras, e a molecada sentava no chão mesmo. A Avenida Brigadeiro Luiz Antonio era bem calma, passavam poucos veículos, e dava para atravessá-la sem preocupações.
Hoje, a vila tornou-se particular, um condomínio fechado, meio sofisticado, não dá nem para entrar ali, mas naquele lugar muita gente se criou e viveu suas histórias, e depois se dissolveu na grande população desta cidade querida, pelos mais diversos bairros.

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