Bondes em São Paulo

São Paulo, minha querida cidade, meu torrão,
dos saudosos bondes a 200 reis a passagem,
que podiam, também ser trocados por um pequeno
retângulo, alaranjado, o passe, comprado na estação.
Elétricos, sacolejantes, parecidos com trem,
trilhos exclusivos, arejados, parando com um aceno.

Se grande fosse, atrelava um bondinho, o “cara-dura”,
o motorneiro, protegido por para-brizas e freio a ar,
mas o cobrador, dependurado no estribo, um pingente,
sem proteção, recebendo, fazendo troco, na candura,
não conseguia verificar quem descia sem pagar,
tentava, com muito sacrifício, atender a toda a gente.

Se fosse pequeno, além do cobrador, o motorneiro
também sofria com esses simpáticos importados,
que hoje, lembrando deles, não consigo aceitar
que, em seu pais de origem, com neve e aguaceiro,
esse condutor, levasse o carro, vazio ou lotado,
a seu destino, pacientemente, sem reclamar.

É que esses bondes pequenos, os mais antigos,
não tinham para-brizas, o freio era uma roda de ferro,
enorme, e numa parada brusca, vendo o condutor
angustiado, girando a roda, pra parar o veículo,
a gente ficava torcendo pra que ele, sem erro,
fizesse a parada, com vento, chuva, frio ou calor.

Outro detalhe, a Light, insistia na indumentária,
condutor, de pé e cobrador tinham a obrigação
de trabalharem com uniforme de flanela azul,
camisa com colarinho, gravata e quepe; temerária
disciplina, ordem de quem não conhecia nosso verão,
seguindo parâmetros de regiões, que não as do sul.

Depois vieram os elétricos fechados, condutores sentados,
como os cobradores, bancos com janela-proteção,
portas automáticas, borboletas, tudo em ar comprimido,
passageiros bem vestidos e, por isso bem comportados.
Quando se dispunha a descer, o ilustre cidadão,
pisando na soleira da porta, acusava sua intenção.

Eram todos vermelhos, cor que chamava muito atenção,
por isso o povo apelidou-os de bonde Camarão.
Tinha o verde, pra transporte de chacareiros, na área do mercadão,
e, por ter essa característica, a passagem, mais barata, um tostão.

E será sempre bem lembrados os reclames que marcaram:
“Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o sr. tem
ao seu lado. No entanto, acredite, quase morreu de bronquite;
salvou-o Rhum Creosotado.”
“Largue-me, deixe-me gritar. Na tosse, bronquite ou rouquidão,
use Xarope São João.”
“Garcia, o Imperador da Moda”
“Coceira, frieira, assadura, ai meu Deus que grande tortura;
mas, eis que tudo ficou bom pois passei a pomada de São Sebastião”
E as recomendações da Light:
“Cuidado sempre, prevenir acidentes é dever de todos”

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