O jeito moleque de se virar

Para não ficar mais pegando dinheiro da carteira do pai achei por bem pensar numa maneira de ganhar dinheiro. Um dia empinando quadrado ouvi seu Joaquim reclamar da falta de adubo para sua horta, que abastecia praticamente toda aquela parte do bairro da Vila Olímpia e Brooklin Novo. Então me ocorreu em catar esterco para vender, sabia que um freguês eu já tinha. Mesmo porque, seu Joaquim não ia deixar de fazer seu serviço na chácara para ficar catando o adubo que necessitava.<br>Cavalo e vaca era o que não faltava naqueles dois bairros. Terreno baldio então, tinha aos montes, e era só entrar neles que pisava na merda. Os cavalos ficavam amarrados para não fugir, pois não havia cerca. Sendo assim facilitava a catança, pois todos os dejetos dos animais ficavam circunscritos a um raio de cinco metros quadrados. Com a carriola que já tinha para pegar terra para aterrar o quintal de casa, ia aos terrenos e enchia de estrume, que mais parecia um monge de batatinhas esverdeadas. O esterco das vacas era mais rentável, pois o bolo fecal arredondado era do tamanho dos bolos que minha mãe fazia. Cada bolo de esterco de uma vaca era muitas latas de óleo Maria. Já o do esterco dos cavalos era bem menos. Mas os chacareiros não gostavam muito do esterco de vacas, porque segundo eles era muito forte e queimava a raiz das plantas, mesmo depois de curtido. Na horta do meu pai não havia essa restrição e as verduras cresciam bastante. Então deixava os da vaca para a horta do meu pai e o dos cavalos eu vendia.<br>O monte de esterco estava quase mais alto que a veneziana. Quando ele estava fresco fedia pra chuchu. Minha mãe xingava bastante.<br>Um belo dia fui com a carriola até a boca de esterco. Seu Joaquim arregalou os olhos, de satisfação, mas queria pagar quinhentão (cinqüenta centavos) por quilo. Dei um grupo no “murruga” e falei que tinha outro, perto da Rua Funchal que pagava mais. Ai ele concordou em pagar 0,75 por quilo.<br>Estava sempre ali por perto, e um dia vi seu Joaquim batendo com o garfo de pegar capim em cima dos estercos que ficavam esfarinhados para misturar nos canteiros.<br>Ai eu peguei tela de pôr nos viveiros de gaiola de passarinhos e fiz uma peneira, por onde passava o esterco depois de bem batido. Na segunda vez eu fui com uma carriola maior, que meu irmão José tinha feito, com rodas de madeira recobertas com pneu de bicicleta em toda volta para não fazer muito barulho no quintal de casa para não acordar minha mãe das dormidas de depois do almoço. Metade da carriola estava com esterco bruto, e metade com esterco esfarelado. Pelo primeiro ficou o mesmo preço. Já o segundo eu cobrei 1,50. Afinal tinha tido trabalho em secar, bater e peneirar. Ele franziu a testa, mas concordou em pagar. O negócio estava dando certo, tinha ganhado um bom dinheiro, mais uns trocos que ganhava, para ir à venda para as vizinhas, dava para comprar doces, balas, futebol, o resto eu guardava de baixo do meu colchão, que era de capim.<br>Como iria dizer anos mais tarde Chacrinha, nada se cria, tudo se copia, tudo que era moleque das redondezas começou a catar esterco para vender. <br>Resolvi catar lata. Tinha três ferros velhos que compravam tudo. Ai eram montes de latas, vidros e outros metais. Gostava de ir à Avenida Central (Av. Dr.Cardoso de Mello), tinha uma balança confiável, aquela que tinha a base de ferro. Com a haste que ia até cem quilos. Os outros dois pesavam com balança de peixeiro. A primeira vez que fui levar coisas para vender, eu ainda era calça branca (iniciante), levei tudo misturado. Tudo ficou pelo mesmo preço. Aí quem saiu lucrando foi ele. Quem me deu a dica foi o Zé do Lixo. Ele e seus dois irmãos, Hitler e Getulio, também catavam e vendiam separado. O alumínio era o mais caro. Depois do cobre, por que os ferros velhos pagavam uma nota. A lata de óleo também tinha um preço bom, desde que não estivesse amassada. Para os vidros o branco era mais caro que os de outras cores. Os vidros de remédios à gente não vendia para o ferro velho e sim para as farmácias que repassavam aos laboratórios. Outro produto que rendia um bom dinheiro era o litro de leite. Sempre tinha um ou outro sobrando em casa, à gente ia bem cedinho, roubava das casas das pessoas preguiçosas que não iam a padaria e pagavam o caminhão do Leite Vigor para entregar em casa. Então a gente arrombava a portinhola a beira do muro, onde ficava o pão e o leite, e colecionava. Era um dinheirinho a mais.<br>Agora com esse tipo de catança o monte já tinha passado da veneziana. Estava mais próximo da calha que ficava no beiral do telhado. Meu irmão também ajudava a catar. Meu pai uma noite viu aquilo tudo e, por incrível que pareça, não falou nada.<br>Aí em tudo que dava para ganhar dinheiro, a gente metia a cara. Descobrimos que tinha uns alemães que gostavam de funcho (cogumelo), e lá fui eu pelo mato adentro pegar o tal legume que era saboroso, que bem cozido e temperado era de dar água na boca.<br>Quando chovia pela madrugada era só esperar sair o sol que brotava da terra aqueles autênticos guarda chuvas de talo grosso.<br>Outra fonte de renda era vender Bombril. Eu pulava o muro de trás da fábrica.<br>A frente era na Rua Nova York, esquina com a Avenida Central das Monções (Avenida Padre Antonio dos Santos). Com um calhamaço de lã de aço, que eles jogavam fora, mas que era boa, pelo menos para mim. Então era só fazer ela do tamanho normal e vender para as mulheres de perto de casa. <br>Por incrível que pareça, mesmo sabendo que se tratava de palha de aço Bombril “pirata”, elas comparavam bastante. Era o tempo que elas não perdiam tempo para ir à venda de secos e molhados. Também aí começou a aparecer concorrentes, só que eles não tinham peito de pular o muro alto da fabrica Bombril.<br>Então passei a ganhar Roialtys, vendendo a eles pela metade e ganhando sem fazer força. Sem contar que ganhava também vendendo para as minhas freguesas. A coisa degringolou quando o marido de uma soube que um rapazinho que vendia as palhas de aço estava tendo um idílio com a mulher dele, dentro de sua casa.<br>Aí a coisa se espalhou e as mulheres tinham até medo de sair à calçada para comprar. Parece que alguém dedou lá na fábrica do Bombril porque a ultima vez que lá fui tinha um vigia com cassetete na mão rodopiando-o, dando risada, pensando que eu ia pular. Na verdade eu pulei, mas foi de costas, voltando para a rua. Tive que voltar a catar latas. Uma pena. <br>De todas as vendas, a do “Bombril” era a mais rentável.<br><br>e-mail do autor: [email protected]