Personagem no rótulo

Outro dia lembrei do frasco de Toddy. Era de vidro âmbar com tampa metálica de rosca. Esse vidro nos serviu num trabalho escolar, na confecção de um “barômetro”, trabalho esse que, de tão bem feito e interessante, acabou sendo exposto na feira de ciência da minha escola, para nosso orgulho e vaidade.<br>Lembro bem que no rótulo do Toddy havia a figura de um garoto com um bonézinho meio esquisito, mas muito característico. O garoto exalava saúde, como devia ser em um produto achocolatado recomendado para adolescentes em fase de crescimento. Parece que queria nos dizer: “Tome Toddy e ficarás assim como eu, forte!”. Hoje, penso que aquele garoto era até meio gorducho, pouco anabolizado e meio careta, inda mais com aquele bonézinho (se ao menos fosse um boné da Naique, ou da Ribóque!), uma figura que não faria o mínimo sucesso nos tempos atuais, possivelmente determinando o fracasso de vendas do produto nas gôndolas dos supermercados, com baixo “market share” (segundo meu professor de Marquetim).<br>Daí comecei a lembrar de outros ilustres personagens nas embalagens dos produtos. Parece que era uma prática bastante comum a colocação de figuras de pessoas nos rótulos. Eram esse personagens que passavam credibilidade e confiança para os produtos, afinal ainda não havia as novelas da Globo, o Antonio Fagundes pra recomendar as compras de Natal no Shopping Ibirapuera, a Ana Maria Praga com aquele montaréu de produtos Nestlé ou o Cid Moreira (a voz de Deus personificada), pra oferecer um plano de salvação espiritual em fascículos semanais nas bancas com um DVD dos salmos bíblicos.<br>Lembro-me bem daquela imagem de um homem de cabelos longos e brancos, que meio sorridente, metia um certo temor, envolto que estava naquela bata negra cheia de babados e chapéu preto, nas caixas da “Aveia Quaker”. Parecia estar rindo para as crianças, obrigando-as a tomar aquela gororoba misturada no leite. Era a figura de um tutor de colégio interno nos impondo aquela dieta rígida para podermos suportar o martírio das intensas sessões matutinas das aulas chatas de latim. Não sei o quê significava aquele sarcástico sorriso dele.<br>Mas desse aí eu escapei. Porém, não teve como fugir daquele outro estampado no vidro de um fortificante, de gosto ruim que doía, à base de fígado de bacalhau, a tal da “Emulsão de Scott”. Eu, que nem sabia que bacalhau tinha fígado, hoje judio do meu com outro tipo de Scotch: o uísque. Mas aquele homem no rótulo, carregando um baita peixe nas costas, era outro martírio para as crianças, vítimas das mães crédulas dos cartazes afixados nas farmácias e nos ônibus, preconizando os benefícios da “santa” emulsão. Nós, crianças raquíticas, que como todas, de todos os tempos, inclusive as atuais, detestávamos comer verduras e legumes, tínhamos naquele rótulo a nossa projeção. Era como se estivéssemos ali, no lugar do peixe, sendo arrastados pelo homem para o calabouço, caso não nos submetêssemos à ingestão de tão “palatável” líquido.<br>Mas se por um lado, esses eram esquisitos ou atemorizantes, tinha uma dupla estampada em outro produto, que era muito amistosa. Eram tipo assim… Parceiros, digamos. Primeiro, porque tinham a nossa idade e se vestiam como a gente: moleques. Segundo, porque o produto onde eles apareciam, que já na época era politicamente incorreto, nos atraia por essa incorreção e até mesmo por serem feitos da mais fina iguaria infantil, o chocolate. Estou falando dos Cigarrinhos Pan.<br>Aqueles dois garotos no rótulo dos cigarrinhos eram como se fossem nossos amigos. Ali estampados, parece que estavam nos oferecendo o cigarrinho meio que escondido dos nossos pais, pois fumar era coisa de adulto, pelo menos naqueles tempos. E era uma coisa assim, tipo… Ser cidadão de primeira classe, coisa de empresários – não com a conotação que a palavra tem hoje, sempre presente nas colunas policiais. Existia inclusive uma versão “flip top”, reforçando ainda mais esse charme. E os dois garotos, ali na embalagem, parece que estavam nos convidando para essa transgressão, oferecendo o produto e um local meio amoitado para o consumo, longe da vista dos grandes. Eram parceiros mesmo…<br>Tinham ainda os personagens femininos. Lembro bem da embalagem de uma farinha de trigo onde aparecia uma senhora, a Dona Benta. Parecia-se com nossa avó nos aguardando na porta da cozinha de casa, chamando-nos para saborear um delicioso bolo de chocolate, recém-saído do forno, exalando aquele característico aroma, logicamente feito com a tal farinha.<br>Tinha também aquela menina, digo, moça, na lata do leite condensado. Parecia uma campesina do interior de Santa Catarina, com aquele traje típico tirolês, conforme os costumes da imigração local. Parecia que tinha acabado de ordenhar uma maravilhosa vaca leiteira suíça, com a preciosa matéria prima para a produção do saboroso leite condensado.<br>Tudo isso já faz tempo, e como tudo se transforma, fico pensando como estariam eles…<br>Dona Benta, de tão famosa com os bolos de chocolate, acabou fazendo um curso no Sebrae e montou uma confeitaria. Mas não parou por aí. Resolveu virar consultora para assuntos de culinária do programa “Mais Você” e por conselho de um amigo, com o dinheiro dos negócios, comprou terras pros lados de Goiás, onde, sem aguardar a medida provisória do governo, lantou soja com sementes transgênicas. É líder da UDR (União Democrática Ruralista) local e pretende lançar-se candidata a deputada federal por aquele Estado nas próximas eleições.<br>A moça do leite condensado cansou-se da vida campestre. Veio para São Paulo, onde, um dia passeando num Shopping, foi descoberta por um olheiro de uma agência de modelos. Começou desfilando para confecções do Bom Retiro até galgar uma carreira internacional, ajudada por um famoso jogador de futebol. Está hoje morando em Tóquio, mas vive em Nova Iorque, Londres e Paris, fotografada para capas de revistas. Semana passada foi vista de férias nas Ilhas Maldivas na companhia de um grande astro de Hollywood (vide fotos na última edição da Caras). Resolveu ter uma produção independente. Está grávida de três meses. Especula-se que o pai da criança seja um cantor sertanejo famoso ou um dono de um canal de tevê (deu na Contigo).<br>O homem da Aveia Quaker é dono de um templo evangélico e uma rede de rádio e televisão, gozando da imunidade tributária, fazendo a maior grana, tanto assim que acabou montando uma super academia de musculação nos Jardins, onde vende fartamente produtos à base de carnitina, sem receita médica, para aumento da massa muscular dos seus associados. Dizem inclusive, que é dono de um time de futebol no interior do Estado e já ajudou a eleger três deputados federais e um senador pelo Rio. Ah, ia me esquecendo, tem também uma rede de bingos espalhada pelo sul do país e é patrono de uma famosa escola de samba carioca.<br>O pescador do “Emulsão de Scott”, cansado de carregar os peixes nas costas, hoje está aposentado, vivendo em Porto Seguro, onde tem uma frota de escunas, levando turistas para passeios na orla das maravilhosas praias da região. Mas não se afastou totalmente do negócio. Como havia se juntado a uma nativa, teve um filho de nome Jefferson Washington que, hoje com 22 anos, é dono de um outro negócio iniciado pelo pai: uma fábrica de produtos à base de Ômega 3, substância retirada do óleo do fígado de bacalhau, comprovadamente eficaz pelo FDA no tratamento da artereosclerose.<br>Já os nossos queridos amigos dos “Cigarrinhos Pan”, infelizmente… <br>Um, não satisfeito apenas com o consumo de cigarros, foi atrás de outras experiências e acabou se engendrando no uso de drogas diversas. Começou com o álcool, passando depois para outras mais pesadas. Teve seu final triste, com uma overdose. Que Deus o tenha!<br>O outro, assustado com tudo isso pelo que passou seu grande amigo, se engajou numa ONG de auxílio e recuperação de drogados. Mas infelizmente não conseguiu se afastar do cigarro. Tanto que sofre de um crônico enfisema pulmonar, que vira e mexe o leva ao hospital. Como gastou todo o dinheiro ganho na publicidade dos cigarrinhos em noites e noites de esbórnia com as mulheres, hoje não tem como pagar um plano de saúde. Assim vive às voltas nas filas do SUS, rogando por um atendimento médico digno.<br>Quanto ao nosso roliço garotinho “Toddy”, de tanto preconizar o consumo do achocolatado, hoje está sofrendo de obesidade mórbida. Pesa cerca de duzentos e vinte quilos. É fiel adepto dos produtos Herbalife. Já fez todos os tipos de dietas (Dr Atkins, South Beach, da lua etc). Vive comprando os aparelhos de ginástica anunciados no Polishop, tais como Abtronic, Bodyshape etc. Já passou 6 semanas no Spa de Sorocaba. Freqüenta semanalmente as reuniões dos “Vigilantes do Peso”. Toma Xenical de oito em oito horas. Massas e pizza nem pensar, se muito uma fatiazinha da de escarola. Já fez quatro lpa (lipoaspiração) e está com cirurgia de redução de estômago marcada para o mês que vem.<br><br>e-mail do autor: [email protected]