Braz de minha vida

Morei um tempo no centro para ficar próximo do trabalho, para não ter que correr muito. Mas minhas "origens" de bairro mesmo estão no Braz. Naquela região do bairro estão minhas melhores lembranças em solo paulistano. Era lá na 21 de Abril que mantinha meus contatos pela empresa que trabalhava, a Ind. e Com. Roper S/A, e o ambiente calmo e sereno de seus moradores. Um lugar de trabalhadores, de donas de casa, de comércio e de indústrias, e se não estou errado, de grandes praças, como o Parque Dom Pedro II. Trata-se de um bairro com ligações com outros bairros, mas não há quem não se sinta bem nele, pois é o intermediário de ligações de comunidades paulistanas. Pelo Braz se vai ao Ipiranga, à Lapa e ao litoral paulista, para atingir as rodovias federais e estaduais que nos levam às praias. Foi no Braz que tive o privilégio de morar em algumas pensões que abrigavam pessoas do interior de São Paulo e também de imigrantes de outros estados brasileiros com destaque ao Nordeste. Foi nessas pensões que conheci o sotaque dos pernambucanos, o modo de viver livre dos cearenses e de outros mais. Não conheci povos e pessoas de tanta fidelidade como os nordestinos. Por São Paulo circulávamos em qualquer ponto durante a noite para nos divertirmos. Diziam eles que não precisava temer nada, haja vista que estava em suas companhias. Pena que a memória se perdeu um pouco e já não lembro dos seus nomes, nem das casas noturnas que frequentávamos, indo não em busca de aventuras, mas para dançar sobretudo e ter companhias para conversar e beber uma cerveja. Era uma distração sadia e o que queríamos naquela época mesmo era ter amigos e exercer um direito que considero sagrado, o lazer. O Braz, querido Braz, o bairro que nos acolheu e das lembranças de nosso convívio "familiar" onde durante as refeições tínhamos momentos alegres e bem vividos para que no dia seguinte tivéssemos disposição e forças para reiniciar nossos trabalhos. Não há como esquecer esta experiência. Contava então com meus 20 anos. Estávamos no final da década de 60, quase iniciando a de 70. Vivíamos a época da ditadura militar mais efervecente. Não se podia comentar nem criticar o regime sob pena de irmos parar na prisão. O Braz de minha vida, lugar que me acolheu sem me perguntar nada, apenas me aceitou sem nenhuma exigência. Um lugar de circulação livre para quem tinha espírito de pura liberdade, mesmo vivendo naquela época em um regime de repressão.

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