Toalha de Banquete

Minhas contemporâneas (hoje com 62), fizeram em suas adolescência enxoval para ser levado para suas novas casas, após o casamento. Eram guardados em arcas aos pés da cama. Como minha irmã e eu fomos trabalhar cedo, ela infelizmente muito mais cedo do que eu, não tivemos tempo para tal, nem espaço para a arca, mas ainda assim bordamos em ponto cruz azul uma única toalha para banquete medindo mais de 4,5m com motivos de dragões chineses e flores, e uma dúzia de guardanapos. Levou mais de quatro anos para terminarmos, quando mamãe levou para D. Angelina Passarelli (Rua Barra Funda), para passar ponto ajourt (acho que é assim que se escreve). Dona Angelina também fazia plissados, tão em moda na época. Ficando pronta, a toalha foi lavada, engomada e envolvida em papel de seda branco, esperando para ser usada em ocasião especial.
O tempo foi passando, nossa situação melhorando, outras muito mais bonitas foram compradas, e a toalha símbolo da imposição materna de ter filhas prendadas, aguardando. Finalmente, quisemos fazer uma surpresa pra mamãe, quando ela fez 50 anos: inaugurar a histórica toalha. Onde estava ela? Onde foi parar? Naturalmente em mãos indevidas que nada tiveram a ver com o esforço e a história familiar. Que não souberam o quanto foi difícil economizar para comprar o tecido. Que não souberam quanto foi cobrado para riscá-lo, após a tão estudada escolha do motivo. Que não souberam que a linha foi comprada aos poucos e de lugares distintos, já que precisava ser da mesma partida pra não dar diferença no tom. Que não souberam da energia empregada durante tanto tempo. Não deixamos mamãe saber do furto. Os guardanapos permanecem, para lembrar-nos que tudo deve ser usado imediatamente.

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